Mais de 2,7 mil armas de fogo entregues voluntariamente à Polícia Federal (PF) de Londrina desde a promulgação da Lei do Desarmamento, em julho; outras 631 apreendidas pela Polícia Militar (PM) em 2004 e mais algumas centenas pela Polícia Civil. Tudo levava a crer que a quantidade dessas armas circulando entre a população iria diminuir. Mas não foi isso que aconteceu, até agora.
''Tem aumentado cada vez mais o número de armas de fogo que chegam para a perícia. Imaginávamos que fosse ocorrer justamente o contrário, que com a campanha do desarmamento houvesse menos furto de armas na casa das pessoas e, logo, menos armas entre os criminosos. Mas a cada dia encontro a mesa mais abarrotada. Só na manhã de hoje (ontem) havia um revólver 32, uma pistola artesanal, uma garrucha, uma metralhadora e quatro confrontos balísticos para fazer'', enumera a perita do Instituto de Criminalística (IC) de Londrina, Débora Lucila Ferreira Luiz.
As estatísticas do IC deixam a impressão de que o arsenal de armas de fogo nas mãos de cidadãos comuns leia-se, criminosos é ''inesgotável''. De acordo com Débora, a equipe do setor de balística do órgão tem recebido, em média, 180 dessas armas por mês. São objetos encaminhados por delegacias da Polícia Civil de Londrina e região, que solicita os laudos da perícia para anexar aos inquéritos que apuram o porte ilegal de armas.
Por lei, todo esse arsenal estaria fadado à destruição. Entretanto, os peritos do IC suspeitam que certas armas passam mais de uma vez pelo órgão. ''Às vezes a gente desconfia que algumas armas apreendidas acabaram voltando. Mas como são muitas e não há tempo para pesquisar se a numeração delas bate com as de outras já apreendidas, não é possível comprovar. Seria interessante se houvesse um sistema de marcação das armas'', argumenta Débora.
Um ano após o início da campanha do desarmamento no Paraná e seis meses depois de ela ter se tornado federal, o número de apreensões de armas de fogo registradas pelo 5º Batalhão da PM também se mantém constante. São cerca de 50 por mês, média que resultou em 631 armas apreendidas em todo o ano passado. O subcomandante interino do 5º BPM, capitão Fábio Luiz Rincoski, avalia positivamente esses dados.
''Intensificamos as operações com buscas, revistas e arrastões diários em todos os setores da cidade. Consequentemente, tivemos um aumento de 16% nas apreensões de armas de fogo em relação a 2003 (548 armas). A média de apreensões mensais não tem tido muita variação. Mas em algum momento esse número deve começar a cair'', pondera. Enquanto esse momento não chega, Rincoski ressalta que alguns resultados do recolhimento de armas já podem ser percebidos. Segundo ele, houve redução de 16% dos roubos ocorridos em Londrina de 2003 para 2004, e de 18% no total de arrombamentos no mesmo período.
Rincoski afirma não ter conhecimento de armas recolhidas pela PM que teriam voltado para as mãos de criminosos. Entretanto, duas fontes consultadas pela Folha denunciam a existência de um mercado clandestino alimentado por armas de fogo apreendidas, que envolveria os próprios policiais militares. Antônio (nome fictício), 51 anos, um ex-presidiário que diz ter tido um revólver 38 apreendido por PMs, afirma que a sua e outras dezenas de armas não chegam às delegacias.
''Eles (policiais) tomam todo o seu dinheiro para não te levar preso, e depois vendem a tua arma. É um esquema grande, são policiais que ficam conhecidos no 'meio' e são procurados por quem precisa de uma arma'', descreve. A presença de PMs entre os comerciantes de armas de fogo foi confirmada por uma fonte da Polícia Civil, que não quis ser identificada.
O subcomandante interino do 5º BPM declarou que não recebeu nenhuma denúncia formal ou informal sobre a irregularidade. ''Não há nenhum inquérito em andamento. Caso tenhamos notícia disso, abriremos procedimento'', garantiu.
O delegado-adjunto da 10 Subdvisão Policial (SDP), Márcio Vinicius Amaro, que está respondendo pela chefia do órgão, diz que também não chegaram denúncias oficiais sobre comércio de armas por policiais ao seu conhecimento. ''Se houver uma informação concreta, vou agir como agiria com qualquer criminoso, independente de quem seja'', asseverou. Sobre o fato de o número de armas de fogo apreendidas estar aumentando, apesar do grande número de apreensões e entregas voluntárias, Amaro opina que ''a tendência é diminuir''.

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