Benê Bianchi
De Londrina
A campanha iniciada pela Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Abifarma) há pouco mais de um mês contra os medicamentos vendidos como genéricos, trouxe pelo menos três consequências ao mercado: receio ao dono da farmácia, confusão para o consumidor e prejuízos a laboratórios nacionais fabricantes dos medicamentos conhecidos como similares.
Até agora, a queda no consumo dos similares – signifivativamente mais baratos que os remédios de referência – chega a 30% em determinados mercados, segundo informações do empresário Valter Lupércio, proprietário da Distribuidora de Medicamentos Lupelfarma. Lupércio trabalha apenas com a comercialização de similares e garante que, nas conversas que mantém com os colegas de trabalho, é possível prever a quebra de negócios caso a Lei dos Genéricos não seja revista com urgência.
Os proprietários de farmácias, pressionados pelo poder de fogo da Abifarma, têm evitado oferecer ao paciente um medicamento similar ao receitado pelo médico. Por sua vez, o consumidor não sabe em quem confiar.
‘‘A Abifarma está a serviço das multinacionais, que temem perder espaço no mercado’’, dispara Lupércio. Ele mostra dados que, segundo afirma, demonstram o motivo da preocupação dos laboratórios multinacionais: só no primeiro semestre deste ano, o mercado de similares registrou um crescimento de 3% para 7%. No mesmo período, o comportamento do mercado forçou uma queda nos preços dos medicamentos de referência. Anualmente, os similares movimentam R$ 14 bilhões e a estimativa era de um crescimento de 20% para os próximos anos.
Outro dado que amedronta as multinacionais, na opinião de Lupércio, é o comportamento do mercado nos países em que existem os medicamentos genéricos. ‘‘Nos Estados Unidos, os genéricos existem há 15 anos e já detém 72% do mercado; na Inglaterra, com 20 anos de existência, são responsáveis por 56% do mercado’’, cita.
Para que haja genéricos no mercado, a grande maioria dos medicamentos similares tem que passar pelo teste da bioequivalência. ‘‘Esse teste é caríssimo, chega a R$ 100 mil, e são poucos os laboratórios nacionais que têm condições de fazê-lo’’, cita Lupércio. Além de caro, o teste de bioequivalência exige ‘‘cobaias humanas’’ e requer meses de análises para se obter os resultados. Alguns medicamentos estão isentos dos estudos, como os injetáveis endovenosos, colírios, cremes, pomadas e liquidos em solução.
‘‘Essa lei dos genéricos tem que ser modificada ou revogada porque é economicamente impraticável para a maioria dos laboratórios’’, defende Lupércio. Ele lembra que 50 milhões de brasileiros já não têm acesso a medicamentos devido ao preço e com a investida da Abifarma, que está prejudicando a venda dos similares, a situação pode piorar.
‘‘A diferença de preço é muito grande. Só para se ter uma idéia, se a rede SUS adotasse apenas os similares teria uma economia de R$ 800 milhões por ano, de acordo com números divulgados recentemente’’, salienta.
A lei dos genéricos tem dividido opiniões. ‘‘A lei é ótima e precisa ser implantada rapidamente,’’ defende Tânia Maria Bozelli Balbinotti, membro do Conselho Regional de Farmácia. Segundo ela, todo o setor está bastante confuso. ‘‘Dados da Organização Ibero-latino-americana de Farmacêuticos são de que 50% da população brasileira não tem acesso a medicamentos e 25% têm acesso limitado. O questionamento é: será que é melhor o paciente tomar um similar ou ficar sem remédio?’’
Mas Tânia alerta que há diferença de eficácia entre os similares e os genéricos. Essas diferenças estão desde o tempo necessário para absorção até o período de ação e efeitos colaterais dos remédios. ‘‘Apenas com o teste de bioequivalência é que ficará provada a mesma eficácia. Por isso, a população tem que exigir do governo que a lei seja implantada. Aí sim, a população estará comprando um medicamento mais barato e com o mesmo resultado alcançado com o uso do medicamento de referência,’’ defende.
Uma das preocupações do Conselho de Farmácias, segundo Tânia, é de que o desencontro de informações faça os consumidores perderem a confiança nos genéricos quando eles passarem a existir no mercado. Ela salienta ainda que os farmacêuticos podem, por lei, substituir o remédio prescrito pelo médico no balcão da farmácia. Para isso, eles devem escrever os motivos que os levaram a fazer isso no verso da receita e assinar embaixo.
‘‘Na minha opinião, antes de mudar um receita, o profissional deve levar em conta o tipo de tratamento que está sendo realizado e entrar em contato com o médico do paciente em questão.’’ Ela alerta que a mudança do remédio ministrado pode alterar o tratamento ou mesmo não alcançar o resultado esperado pelo médico.

COMPARE ALGUNS PREÇOS DE SIMILARES
Substâncias - Medicamentos - Preço Máx. - Preço Similar - Medic. similar - Diferença
Ác. Acetil Salicílico - Aspirina (Bayer) - 1,27 - 0,57 - A.A. Salicílico (Teuto) - 122,81%
Ác. Ascórbico - Cewin - 8,17 - 5,88 - Redoxon - 49,16%
Amoxilina - Hiconcil 150ml - 26,62 - 13,85 - Amoxilina 120ml (Basf) - 53,78%
Bromazepan - Lexotan (Roche) - 8,02 - 4,32 - Bromazepan (Basf) - 85,65%
Dexametasona - Decadron (Prodome) - 3,31 - 2,55 - Dexametasona (Teuto) - 25,45%
Dipirona - Novalgina - 3,42 - 2,80 - Dipirona (Neo Química) 22,14%
Isossorbida - Isordil Ap (Wyeth) - 14,41 - 7,38 - Isocord (Asta) - 95,26%
Lincomicina - Frademicina - 6,77 - 5,45 - Lincomicina (Teuto) - 24,22%
Lorazepan - Lorax - 5,90 - 1,44 - Calmogenol (Brasmedica) - 309,72%
Metoclopramida - Plasil - 3,44 - 2,55 - 2,25 - Eucil (Farmasa) - 52,89%
Neomicina - Noemicina (Qif) - 8,25 - 3,24 - Neomicina (Catarinense) - 154,63%
Paracetamol - Tylenol - 6,65 - 3,47 - Paracetamol (Teuto) - 91,64% -
Penicilina G Benzatina - Benzetacil - 6,58 - 4,10 - Penicili G (Eurofarma) - 60,49%

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