Londrina - Karl Marx, Thomas Hobbes, Adam Smith, Michel Foucault. Estes são apenas alguns dos autores que o preso Leonardo Alboneti, de 32 anos, conheceu no regime semiaberto que cumpre em Londrina. De olho na oportunidade de remir parte da pena por tráfico de drogas, ele já ganhou 100 dias pelos volumes lidos nos últimos dois anos no Centro de Reintegração Social de Londrina (Creslon). A cada 30 dias, Alboneti lê um título novo e tem quadro dias da pena descontados pela Vara de Execuções Penais. Cerca de 600 dos 2,4 mil presos de unidades carcerárias do município já aderiram à prática. Um programa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), batizado de "Livros da Liberdade", pretende ampliar junto à comunidade a doação de livros para detentos.
A iniciativa foi lançada ontem à tarde, na sede da instituição, e tem os mesmos moldes do programa apresentado pela entidade em setembro passado na capital paranaense. O objetivo é unir a possibilidade de remição da pena ao acesso à alfabetização e cultura pela população carcerária. Quatrocentos livros devem ser distribuídos entre as bibliotecas da Casa de Custódia de Londrina (CCL), Creslon e as duas unidades da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). A sociedade civil tem 120 dias para fazer doações na própria OAB e no Fórum local.
O coordenador da Comissão de Estabelecimentos Prisionais da OAB em Londrina, José Carlos Mancini Júnior, explica que o "Livros da Liberdade" tem como base a Lei Federal 12.433/11 e a Lei Estadual 17.329/12. Quem se interessar em colaborar, pode doar títulos didáticos ou literários. Os presos podem escolher qual livro querem ler durante o mês e são acompanhados por um professor de português. Após a leitura, eles têm 10 dias para elaborar uma resenha, na presença de seu educador. Uma comissão da OAB deve acompanhar se os leitores estão tendo deferimento dos pedidos de remição através da leitura.
"Realmente, quatro dias por livro não é muito. É o caminho para evoluirmos, lutarmos contra o crime. O preso malandro não vai se enquadrar nisso", define Mancini. A proposta segue concomitante com outras alternativas para que o preso tenha acesso à remição de pena, como por dias trabalhados e estudo.
Em Curitiba, relata a idealizadora do projeto, a advogada Lúcia Balone, da Comissão de Estabelecimentos Penais da Seccional, foram arrecadados mais de 2 mil livros em 30 dias. Destes, 500 foram catalogados para ser disponibilizados a presos. "Vamos começar a avaliar os frutos desta iniciativa neste ano", pontua. Ela assinala que a intenção é interiorizar cada vez mais o programa, levando, num primeiro momento, a ação para Foz do Iguaçu (Oeste) e Paranaguá (Litoral).

ADESÃO
Quem acompanha de perto os presos que leem para ter a pena abatida avalia que o projeto é o primeiro passo para conquistar leitores assíduos no sistema carcerário. A professora Maria Aparecida Ferreira trabalha com leitura na PEL 1 E 2 e diz que a proposta pode ajudar muito na chegada dos presos. "Quando ele vem deprimido, a leitura é um remédio poderoso para que vá entendendo a realidade dele", observa.
O próprio Leonardo Alboneti, personagem que abriu esta matéria, conta que o mundo dos livros proporcionou a ele diferentes perspectivas para quando ganhar, definitivamente, sua liberdade. Depois que se dedicou à leitura, Alboneti se tornou aluno de Administração da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Ganhou uma bolsa 100% integral para a graduação, pelo Programa Universidade para Todos (ProUni). "Eu já gostava de ler, só não sabia disso", pondera.
Diretor do Patronato Penitenciário de Londrina, Reginaldo Peixoto, viu de perto o interesse de presos pela leitura enquanto esteve à frente do Creslon, até poucos dias atrás. Para ele, trata-se de uma oportunidade de minimizar os efeitos do cárcere. "Criamos, junto ao apenado, um hábito que muitos de nós, na população brasileira, não temos", pontua.

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