Campanha anti-feminicídio conta com o engajamento dos homens
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quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Simoni Saris - Grupo Folha 
Durante a segunda roda de conversa promovida pelo EIG Londrina, em 27 de julho, o coletivo lançou a campanha Laço Branco – Homens pelo fim do feminicídio! Presente em mais de 50 países do mundo, a campanha tem como objetivo mobilizar os homens no engajamento pelo fim da violência contra a mulher e envolver diversos órgãos da sociedade civil e poder público. “Concluímos que precisávamos tentar conversar com os homens. Falar com eles sobre esse machismo estrutural, essa masculinidade ofensiva”, explicou a coordenadora do coletivo, Vanessa Carvalho Mello.
Dados colhidos pelo EIG Londrina apontam que entre maio de 2018 e maio de 2019, o Paraná registrou 82 casos de violência contra a mulher. Em Londrina, neste ano, foram instaurados quatro inquéritos policiais por tentativa de feminicídio e um por feminicídio. Há outros dois casos de feminicídio consumado, mas ainda não denunciados. O coletivo não conseguiu reunir estatísticas sobre a violência praticada em ambientes religiosos porque o sistema de notificação não faz essa distinção. “Por isso a necessidade de estreitar nossa parceria com a rede de enfrentamento. Uma vez que temos a parceria, estamos dizendo para o serviço que recebe esses casos para investigar onde a violência aconteceu”, afirmou a coordenadora. “Propomos para os homens serem parceiros nesta luta para combatermos a violência nos espaços religiosos e fora deles.”
LIDERANÇA
O teólogo e professor da Faculdade Teológica Sul Americana Jonathan Menezes faz parte da Igreja Presbiteriana do Brasil, denominação evangélica que não ordena mulheres. Mas integra uma comunidade em Londrina ligada à igreja que tenta, na medida do possível, fazer diferente. “Na nossa igreja as coisas são um pouco mais soltas, mais livres. Ainda que a mulher não seja oficialmente ordenada, ela prega e exerce a liderança”, destacou Menezes.
A postura que apoia e incentiva as mulheres a ocuparem lugares de destaque nos ambientes religiosos ajuda a construir comunidades de protesto e abrir espaços de fala sobre um tema tão silenciado quanto os abusos dentro de templos e igrejas e ampliar as discussões sobre os abusos cometidos também em outros ambientes. “Há muitas formas de abuso contra a mulher e não ocorrem só dentro dos espaços religiosos e não são só o abuso sexual. Existe o abuso religioso, o abuso espiritual, que é abusar da pessoa utilizando o discurso religioso como forma de legitimar o exercício do poder, o abuso que exclui a mulher, que não lhe dá voz ou chance de se manifestar”, pontuou o teólogo.
Menezes avalia que a sociedade vive um momento de nostalgia de uma masculinidade tóxica em que para poder falar dos direitos da mulher e do lugar da mulher, é preciso dizer que o homem também sofre. “Não se pode entrar nesse jogo de dizer que é difícil tanto para o homem quanto para a mulher porque com a mulher é mais grave. Existe a exclusão, sim, o privilégio masculino existe. E entrar nesse jogo é só uma maneira de evitar o problema, de não encarar as coisas. O papo de gênero não é coisa de feminista, de esquerdista, é um papo para qualquer ser humano.”
SUPREMACIA
Psicólogo clínico e professor da faculdade de psicologia da PUC Londrina, Celso Athayde Neto destaca que em um ambiente religioso a ideia da supremacia masculina ganha um peso maior porque o pastor ou sacerdote tem uma validação muito grande. O que um líder espiritual fala influencia na qualidade e qualificação do que é certo ou errado, justo e injusto. “A pessoa que usa a autoridade e a credibilidade que ela tem para falar de coisas que perpetuam práticas desiguais entre os gêneros tem que rever o que tem perpetuado.”
Athayde Neto afirma ser impossível discutir o feminismo sem que os homens repensem sua masculinidade. Na roda de conversa promovida pelo coletivo, ele reforçou a necessidade e possibilidade de desconstrução do conceito de masculinidade que coloca o homem acima da mulher. “O menino não nasce com o conceito de masculinidade arraigado no gene dele. Isso é transmitido, é uma prática cultural.”
Neste ano, entre as metas da campanha Laço Branco está o recolhimento de pelos menos dez mil assinaturas físicas e virtuais feitas por homens em apoio à mobilização. A campanha acontece em 6 de dezembro. A coleta de assinaturas já começou e está sendo feita em espaços frequentados majoritariamente por homens. Virtualmente, o abaixo-assinado acontece no site change.org. (S.S.)


