Paulo Ubiratan
De Londrina
Caminhoneiros do Norte do Paraná estão questionando a liderança do presidente do União Brasil Caminhoneiros, Nélio Botelho, e prometem para amanhã dar início ao movimento de paralisação na região. ‘‘Se nada acontecer de positivo na reunião de hoje, em Brasília, entre o Botelho e ministro Padilha (Eliseu Padilha, Ministro dos Transportes), não descartamos de até sexta-feira iniciar a paralisação da categoria que estava marcada para dia 22’’, garantiu Murilo Gonçalves, presidente do Sindicato dos Caminhoneiros Autônomos do Paraná. O sindicato reúne no Paraná por volta de 26 mil caminhoneiros.
‘‘Estamos querendo prestigiar o China (José Araujo Silva, da União dos Caminhoneiros do Rio de Janeiro), que não apareceu na mídia durante a última paralisação, mas foi o que mais trabalhou pela nossa causa’’, disse Gonçalves.
O assessor da diretoria do Sindicato, Getúlio Paulo dos Santos, disse que os caminhoneiros foram traídos quando Botelho, para suspender a paralisação, assinou o documento com o governo.
‘‘Eles furaram suas promessas quando aumentaram o combustível e suspenderam a obrigatoriedade da pesagem da carga nas balanças das rodovias. O Botelho alegou que estava sob pressão dos dois ministros, Padilha e Dias (José Carlos Dias, da Justiça)’’, afirmou Getúlio.
Para os sindicalistas, a não-pesagem da carga está estragando o asfalto e criando uma concorrência desleal, diminuindo a oferta de cargas. Os caminhoneiros desonestos, dizem eles, estão carregando seus veículos acima do peso permitido para, sozinhos, obter mais lucros.
‘‘A nossa greve representa o interesse de todo o povo brasileiro. Quanto às ameaças do Ministro da Justiça de chamar o Exército para proibi-la, deixamos claro que não estamos fazendo guerra. Nossa mobilização é pacífica, e tem a finalidade de buscar nossos direitos’’, disse Wilson Roberto Moro, representante no Paraná da União Brasil Caminhoneiro. Moro preconizou que um possível confronto entre os caminhoneiros e o exército ‘‘poderia ocorrer uma tragédia, um derramamento de sangue sem precedente na nossa história’’.
Além do aumento do combustível e a suspensão da pesagem das cargas nas estradas, os caminhoneiros estão revoltados com o valor dos pedágios e a baixa dos fretes. Eles fizeram levantamento, mostrando que os custos de um caminhão subiram 168% e os fretes baixaram 50%. ‘‘Desde a implantação do Plano Real, os custos dos fretes foram congelados e todos os produtos, aumentados. É mais negócio deixar o caminhão parado do que colocá-lo para andar pelas estradas’’, desabafou Murilo.
Os sindicalistas esperam convite do governo do Paraná para conversar sobre o pedágio e a possibilidade de diminuir custos. Na reunião marcada para hoje, em Brasília, serão discutidas soluções para serem implantadas urgentemente. Anteontem, caminhoneiros iniciariam em Goiás a paralisação, mas foram proibidos pela Polícia Rodoviária Federal.
O presidente Fernando Henrique Cardoso encaminhou ontem ao Congresso projeto de lei que altera dispositivos do Código de Trânsito Brasileiro e atende a uma das reivindicações dos caminhoneiros. O projeto amplia o limite de pontos (de 20 para 30) para a retenção da carteira de habilitação.

AS DESPESAS DOS CAMINHONEIROS
-Valor médio de cada caminhão da frota brasileira........ R$ 40 mil
-Gasto médio com combustível por ano (por caminhão)...... R$ 70 mil
-Despesas com pedágio na Rodovia Castelo Branco.......... R$ 96,00
-Gasto com diesel para percorrer a Castelo Branco........ R$ 70,00
-Gasto médio por quilômetro rodado....................... R$ 1,00
-Frete cobrado por quilômetro rodado..................... R$ 0,50
Fonte: Sindicato dos Caminhoneiros do Paraná.Se as negociações com o governo federal não avançarem, motoristas da região de Londrina podem deflagrar paralisação
Josoé de CarvalhoQUEBRA DE PROMESSAGetulio dos Santos, Murilo Gonçalves e Wilson Moro dizem que o governo ‘‘furou’’ o compromisso quando aumentou o combustível

mockup