CAMINHO DA LONGEVIDADE Triste, centenária chega ao seu 126º aniversário
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sábado, 25 de fevereiro de 2006
Fernanda Borges<br>Reportagem Local 
Há 126 anos, no dia 28 de fevereiro de 1880, nascia Maria Olívia da Silva, a mulher mais idosa do Brasil. Apesar de não ter seus documentos registrados oficialmente no livro dos recordes Guinness por questões burocráticas, a centenária é considerada, também, a mais idosa do mundo.
Quando tem oportunidade de conversar com alguém, Maria Olívia se queixa por diversas vezes. Suas reclamações não são de dores no corpo, mas sim de solidão. Ignorada pelos filhos e netos, ela vive praticamente sem renda e bastante triste, na sua casa velha de madeira, localizada no distrito rural de Içara, em Astorga (80 km a oeste de Londrina), município com cerca de 24 mil habitantes.
A ex-lavradora, de 1,58m e 32 quilos, sente vontade de sair de casa, encontrar pessoas. Com um semblante abatido, dona Maria que se convertou para a igreja evangélica Congregação Cristã no Brasil há 42 anos desabafa, entre palavras ofegantes: ''Ninguém vem me buscar pra ir a Igreja''.
Maria Olívia escuta pouco, fala baixinho e quase não enxerga por causa da catarata. Depois de algumas horas conversando, ela se distrai, esquece da solidão e chega a manifestar alguns singelos sorrisos.
Ao todo, a centenária teve 14 filhos, 10 naturais e quatro de criação. Ela tem lembrança de todos eles, inclusive, sente falta da presença dos familiares. Hoje, vive com Aparecido Honório Silva, 59 anos, o filho adotivo, que nunca se casou para cuidar da mãe.
Já com a saúde debilitada, decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ocorrido há dois anos, Aparecido explica que algumas informações da vida da mãe foram resgatadas por um advogado que buscava organizar os documentos da centenária. ''Ele disse que ela tem mais de 380 netos, bisnetos e tataranetos. Na verdade, ela tem pra lá de tataranetos, mas nem ele soube dizer como se fala'', comenta o autônomo, que trabalha com consertos de aparelhos eletrônicos.
Outra informação levantada pelo advogado, que nem Aparecido sabia, é que a mãe teria vindo para o Brasil com 3 anos de idade, de Varsóvia (capital da Polônia), cidade onde ela teria nascido. Mas dona Maria, apesar de possuir boa memória, já não se lembra mais de detalhes sobre sua infância. ''Tem vezes que ela conta alguma coisa, que veio do mar, mas logo já esquece'' diz Aparecido.
A rotina diária de dona Maria se resume em acordar cedo e permanecer por horas sentada no sofá da sala. A casa da ex-lavradora é pequena. Tem quatro cômodos e não tem mais de 40 metros quadrados. Fica na Rua Sergipe, 196, e é facilmente localizada por se destacar pela sua simplicidade e também porque todos sabem que ali mora a mulher de 126 anos.
Aparecido lamenta as condições da casa e conta que em dias de chuva dona Maria chega a ser incomodada com diversas goteiras sobre sua cama. ''Ela fica brava. Trago ela para a sala, mas começa a chover aqui também, então ela tem que voltar para o quarto. O telhado precisava ser consertado, mas a gente não tem condições. Um monte de gente vem aqui para saber dela, promete um monte de coisas, e depois esquece''.
Sem grande volume de trabalho, Aparecido vive com a pensão de um salário mínimo deixada pelo pai, o lavrador Benedito Honório, morto aos 83 anos em 1964. Preocupado com a mãe, Aparecido nega se submeter a uma cirurgia na cabeça recomendada pelos médicos por causa de dona Maria. ''Que jeito que eu vou operar? Minha mãe, como que ela fica? Acho que é capaz de eu ir embora primeiro que ela'', comenta Aparecido, em leve tom de brincadeira.


