A adesão maciça das escolas de Londrina à Semana da Paz, lançada oficialmente na última segunda-feira, está levando a Polícia Militar (PM) a trabalhar ''no limite'' do atendimento a eventos. Somente ontem, seis escolas solicitaram o auxílio da PM para garantir a segurança em caminhadas pela paz. O número é alto, considerando-se o reduzido efetivo da polícia. De acordo com o chefe do setor de planejamento da PM, capitão Altivir Cieslak, as escolas que deixam a solicitação para a última hora correm o risco de ficarem sem atendimento.
''Parece que todas as escolas resolveram promover caminhadas no mesmo dia (ontem). Nos próximos anos, os organizadores da Semana da Paz terão que distribuir melhor os eventos'', avaliou o capitão. O número de PMs deslocados para acompanhar as caminhadas varia conforme à dimensão do evento, mas a média é de dois policiais com motocicletas. O coordenador da Semana da Paz, José Cláudio Galhardi, disse que a grande participação das instituições de ensino surpreendeu os próprios organizadores, e estimou que pelo menos 50 escolas tenham aderido à mobilização.
Quatro delas conseguiram reunir, ontem pela manhã, mais de mil crianças e adolescentes no Conjunto Parigot de Souza 3 (zona norte). Depois de uma caminhada pelo bairro, o grupo das escolas estaduais José Carlos Pinoti, Adélia Dionísio e Moacir Camargo Martins ganhou o reforço de 300 crianças com idades entre quatro meses e 7 anos, do Centro de Educação Maria Helena Januário. ''Grande parte é de crianças de bairros pobres, como o assentamento São Jorge (zona norte) e o Jardim Nossa Senhora da Paz (zona oeste), que convivem desde cedo com a violência'', assinalou a diretora do Centro, Joelina Rodrigues.
No Centro de Atendimento Integrado à Criança (Caic) José Joffily, no Jardim Santiago (zona oeste), foram usados música, dança e teatro para expressar que é possível romper com a violência, mesmo em uma região onde há grande criminalidade. ''Tentamos ensinar o que é a paz através de histórias. Mesmo porque a realidade desses alunos não é de paz, muitos inclusive têm os próprios pais presos'', observou a diretora do Caic, Elvira Rosana Macedo. A dona de casa Lúcia Pires da Silva, 32 anos, moradora do Santiago e mãe de duas alunas do Caic, acredita que as crianças de bairros violentos não estão fadadas a se tornarem agressivas. ''Criança é criança, não nasce criminosa. Mas se não ensinar a viver em paz desde cedo, ela pode ser violenta em qualquer bairro'', apontou.
Em uma breve conversa com alguns grupos de alunos do Caic, é possível perceber a evolução do conceito de paz entre crianças e adolescentes. Douglas Rafael, 4 anos, ainda nem sabe que a paz já existe em seu sonho. ''Quando eu crescer, quero ter um trator. Vou dar voltas pelo campo e, quando escurecer, guardo ele e volto pra casa'', disse. Adriele Fernanda, 9 anos, já consegue dar definições. ''Paz é ter amor aos outros, não brigar, não tem rancor'', enumerou. Com 16 anos, o aluno Leandro sabe o que significa paz mas admite que também está sujeito a cometer violências. '' Aqui (no Jardim Santiago) o bicho tá feio. Tem muito roubo, muita matança. Eu quero paz, mas se alguém me bater eu bato de volta'', afirmou.
Segundo a psicóloga Fátima Comte, eventos como os promovidos na Semana da Paz são válidos, desde que tenham uma continuidade. ''Essas manifestações ajudam a formar o conceito do que é paz, mas depois as escolas precisam valorizar hábitos pacíficos, como resolver problemas sem agressividade e não ser muito punitivo'', explicou. Quanto à influência do meio na formação dos alunos, a psicóloga garante que o exemplo de paz passado dentro da escola pode se sobressair ao exemplo de violência, fora dela. ''A criança terá uma escolha. Se perceber que a paz gera mais felicidade, ela vai optar pela paz''.

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