Marcos NegriniResistênciaPolícia tentou impedir chegada da marcha em Paranavaí, onde os sem-terra protestaram contra a prisão de dois líderes do MST A marcha dos sem-terra da região de Querência do Norte até Curitiba, a 640 quilômetros de distância, é o retrato da situação a que chegou a luta de milhares de famílias por um pedaço de chão para plantar. Os quase 250 sem-terra que continuam na marcha - que começou no dia 23 de setembro, representando mais de mil famílias acampadas em 22 áreas nas regiões de Querência do Norte e Paranacity - garantem que conseguirão chegar a Curitiba. ‘‘Custe o que custar’’, avisa Paulo Marqui, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), na região de Querência do Norte.
Ele diz que todos estão conscientes dos objetivos da marcha e sabem que apenas com pressão será possível garantir um compromisso das autoridades para as propostas do movimento. Quase todos os sem-terra que participam da marcha se sentem impedidos de dar entrevistas.
Ao serem abordados, eles alegam que apenas os líderes do MST falam, mesmo nas questões pessoais de cada um durante o trajeto. Somente depois de uma conversa com um dos líderes foi possível a entrevista com alguns sem-terra. Mesmo assim, cada um deles ouvido pela Folha teve uma conversa com líderes antes de dar a entrevista.
Eles demonstram estar ciente dos objetivos da marcha, que vai a Curitiba cobrar imposições do MST perante o governo do Estado. Acreditam que a pressão vai agilizar o assentamento das famílias atualmente acampadas. ‘‘Todos serão beneficiados’’, dizem. Alguns reclamam do esforço em andar até 30 quilômetros por dia, mas garantem que não vão desistir. Outros alegam que os coordenadores ganharam chinelos na cidade anterior, mas não distribuem aos sem-terra.
A maior parte caminha de chinelos de dedo ou mesmo descalça quando o sol está mais fraco e o asfalto não queima a sola dos pés. De Querência do Norte até a região de Maringá, em uma semana de marcha, a maioria que usa chinelos já estava com parte dos pés no chão, com a metade do solado gasta. Eles acreditam que até Curitiba será preciso de pelo menos três pares de chinelo.
Outro problema é o clima, que tem provocado uma oscilação de temperatura desde a saída da marcha. No primeiro dia, a temperatura beirava os 30 graus, com sol. Quando a marcha foi retomada, a partir da Fazenda Saudade, em Santa Isabel do Ivaí, já chovia. Depois voltou a esquentar. No meio da semana o clima era mais ameno, até com um pouco de frio no início da manhã e de noite. Quando a marcha chegou em Apucarana, de onde os sem-terra saem amanhã, o calor já tinha voltado.
‘‘Isso preocupa porque tem muita criança e elas são mais fracas’’, explica um sem-terra que trouxe dois filhos menores para a marcha. Mas o incentivo encontrado nas cidades por onde passam tem ajudado os sem-terra a superar as adversidades.
O maior incentivo, afirma Paulo Marqui, foi alcançado no primeiro dia da marcha com a saída do delegado Mário Sérgio Bradock de Querência do Norte e a retomada da Fazenda Saudade. Mais de 500 sem-terra saíram de Querência do Norte e foram até Santa Isabel do Ivaí, onde se juntaram as 43 famílias desalojadas uma semana antes da Saudade por 80 ruralistas. A meta era almoçar junto com os sem-terra no ginásio de esportes da cidade e decidir sobre a continuidade da marcha no dia seguinte.
Retomada As 43 famílias estavam há uma semana alojadas sem as mínimas condições de higiene e o clima era de revolta. À tarde, mais de 600 sem-terra foram até a entrada da Fazenda Saudade, que era guardada por 10 policiais militares. Sem resistência, a propriedade foi invadida pela quarta vez em dois anos.
Dois dias depois, cerca de 200 sem-terra voltaram para a estrada, mesmo debaixo de chuva. ‘‘Os outros trabalhadores ficam na fazenda para garantir a manutenção da área’’, explica Marqui. A idéia era chegar em Paranavaí para um protesto contra a prisão de dois líderes do MST na região, Delfino Becker e Celso Anghinoni.
Foi o primeiro momento de tensão entre os sem-terra e a polícia. Em Planaltina do Paraná, a cerca de 50 quilômetros de Paranavaí, a polícia tentou impedir a continuidade da marcha. Paulo Marqui acredita que o receio da polícia era o protesto contra a prisão de Becker e Anghinoni. A esta altura, a Justiça já havia negado o relaxamento da prisão e o habeas corpus para os dois líderes. ‘‘A tensão ficou só do lado dos policiais’’, garante ele.
Acostamento A ordem da polícia era que os manifestantes não usassem a pista, caminhando pelo acostamento. A polícia impediu ainda que mulheres e crianças fossem transportadas em cima de camionetas, apesar da capota proteger a caçamba. Todos tiveram que andar mais de 10 quilômetros a pé. ‘‘Somos trabalhadores, temos o direito de ir e vir e a polícia deve acompanhar a marcha para garantir nossa segurança’’, afirmou Marqui.
Superado o primeiro obstáculo, os sem-terra conseguiram fazer uma manifestação pacífica em Paranavaí, ganhando cada vez mais o apoio da comunidade nas cidades por onde passaram. Na segunda-feira, a marcha recebeu o reforço de outros 80 sem-terra representando as mais de 400 famílias acampadas em quatro áreas na região de Paranacity.

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