Camelôs tentam driblar fiscalização
Silvana Leão
De Londrina
Vendedores ambulantes que comercializam mercadorias contrabandeadas - cigarros, relógios, óculos, calculadoras, flores artificiais, entre outras - nas proximidades do Terminal Urbano de Londrina estavam revoltados ontem com o arrastão realizado na véspera pela Polícia Federal e Receita Federal. A ação foi determinada pela Procuradoria da República de Londrina, que atendeu representação da Companhia Municipal de Urbanização (Comurb) e Associação dos Camelôs de Londrina (Acal).
Vários ambulantes perderam as mercadorias, mas nem assim desistiram de voltar às ruas ontem. Alguns, temerosos, trabalhavam alertas, com menos mercadoria e sem exibir demais os produtos. Uma das vendedoras passou o dia com sua caixa de relógios apenas semi-aberta sobre o colo. Qualquer coisa eu saio correndo com a caixa, disse, alegando que se perder a mercadoria, não tem como comprar outra. Nosso dinheiro está todo investido aqui. Ela trabalha junto com o marido e afirmou que o dinheiro conseguido com as vendas - de R$ 20,00 a 30,00 por dia - é para sustentar os três filhos do casal.
Um comerciante de cigarros, aposentado por invalidez, trabalhou ontem meio escondido. Em vez da grande sacola que costumava trazer para a calçada da Avenida São Paulo, ele saiu de casa carregando apenas um saco plástico com poucos pacotes do produto. Se desconfiar de alguma coisa, jogo tudo embaixo de um carro e saio correndo. Ele acha que Deus cuidou para que sua mercadoria não fosse apreendida na véspera. Quando vi a polícia, fechei a sacola e saí carregando. Ali na esquina orei para Deus me proteger. Os policiais não me notaram, conta o ambulante, com os olhos cheios de lágrimas.
Outra ambulante, indignada, dizia: O delegado Morel (chefe da Polícia Federal em Londrina) falou não mais fazer arrastões mas hoje cedo já pegaram a mercadoria de uma pessoa. Aqui todo mundo é pobre e desempregado. Achei um absurdo a Polícia Federal ficar aqui pegando coisa de pouco valor, como tiara e escova de cabelo, cadeado, batom.
Um casal de irmãos que recebe comissão de 10% para vender cigarros, também levou mercadoria para a rua ontem, mas permanecia de olho nos carros que podiam ser de policiais. Eles vêm à paisana, por isso a gente não sabe quando estão por perto. Anteontem os dois irmãos perderam, ao todo, cerca de 70 pacotes de cigarro.
O delegado da Polícia Federal Sandro Roberto Viana, que está comandando a operação, informou que os policiais vão continuar passando de carro pelas ruas várias vezes durante o dia. Se identificarem algum ambulante a mercadoria será apreendida e a pessoa presa em flagrante. Segundo o delegado, a polícia ficará de olho principalmente nos vendedores de cigarros. O presidente da Associação dos Camelôs, José Aprígio da Silva, não foi localizado pela Folha para falar sobre o assunto.Um dia depois do arrastão feito pela Polícia e a Receita Federal, ambulantes retornaram às ruas para comercializar mercadorias
Dorico da SilvaQUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIAAmbulantes voltaram a ocupar as calçadas no centro da cidade: temerosos e revoltados com apreensão de mercadorias





