Os comerciantes do Camelódromo Central de Londrina fecharam o comércio do centro da cidade mais uma vez ontem. Desta vez, porém, os manifestantes se mostraram mais organizados e pacíficos do que na quinta-feira, quando portas de vidro de um shopping e de uma loja foram quebradas e uma senhora ficou ferida em decorrência do tumulto. ''Esses vandalismos foram causados por pessoas infiltradas. Nossa manifestação é pacífica, e quando algum de nós se exalta nós mesmos tratamos de identificar e conter'', alegou Rogério Gonsales, presidente da ONG Canaã, entidade que representa os camelôs.
Os manifestantes começaram seu protesto em frente ao Camelódromo, onde permaneceram até as dez horas da manhã. Pouco antes, um caminhão do Corpo de Bombeiros havia passado pelo local, para atender a um falso chamado de incêndio no prédio dos camelôs. Em passeata, centenas de pessoas percorreram as ruas do Centro até o Calçadão. Por onde passavam, iam encontrando a grande maioria das lojas já com portas fechadas - reflexo da ação do dia anterior. ''Tá todo mundo com medo, assustado. Ficamos reféns da bagunça'', justificou uma comerciante da rua Sergipe, que fechou as portas antes mesmo de a passeata começar.
No segundo dia consecutivo, a animosidade dos comerciantes cresceu. ''Um dia que a gente fica parado é um prejuízo grande, principalmente nesta semana, que é boa para o comércio. Eu concordo com a manifestação, mas não com a baderna. Eles fazerem isso mais um dia acaba colocando a população contra'', comentou uma vendedora de outra loja.
''Este protesto é uma retaliação contra a Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), que provocou tudo isso ao fazer uma denúncia ao Ministério Público'', explicou Gonsales, garantindo que hoje o comércio também seria fechado. Segundo o presidente da ONG, o Camelódromo gera pelo menos 1.200 empregos diretos em suas 350 lojas.
O movimento ganhou um carro de som ainda pela manhã, e o apoio de outros camelódromos da cidade. ''Nós, lojistas da Galeria Benjamin, também fechamos as portas em solidariedade a eles, para acompanhar o protesto. Teremos prejuízo, mas se não houver união e organização, os grandes não deixam os pequenos trabalhar'', afirmou Cícero Augustinho dos Santos, acrescentando que, na galeria onde trabalha, 70% da mercadoria é legalizada.
Após uma pausa para o almoço, os manifestantes voltaram a percorrer as ruas do centro. Nesse período, que durou pouco mais de uma hora, uma parcela significativa das lojas do centro aproveitou para funcionar, mesmo que com algumas portas fechadas ou parcialmente abertas. ''Já estou com o braço doendo de tando abrir e fechar a loja'', comentou um funcionário de uma loja de roupas.
A reportagem verificou que diversos estabelecimentos abaixavam as portas de ferro apenas enquanto os manifestantes estavam por perto, e reabriam em seguida. ''Na quinta-feira também fizemos isso até as três da tarde, quando resolvemos fechar de vez'', revelou uma vendedora, contando que boa parte das lojas da mesma rua fizeram o mesmo. Os comerciantes lamentaram, porém, que poucos clientes se aventuravam a fazer compras nesse ínterim. Prevenidos e solidários, funcionários de uma mesma rua chegavam a avisar uns aos outros sobre a aproximação dos camelôs.
Outro estabelecimento que obteve permissão expressa para permanecer aberto foi um bar em frente ao Camelódromo. Já uma pequena loja a menos de cem metros dali até insistiu, mas os proprietários viram-se obrigados a ceder e fechar diante da pressão dos manifestantes. Antes de o movimento começar, o tenente Nelson Villa havia esclarecido aos camelôs que a polícia interviria caso alguma loja insistisse em permanecer de portas abertas, garantindo-lhes esse direito. Porém, não foi isso que aconteceu.
Já o Royal Plaza Shopping conseguiu permanecer aberto com a ajuda de pelo menos três policiais em cada porta de entrada. Ao passar em frente ao shopping, os manifestantes pediram que os lojistas fechassem, mas não entraram em confronto.

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