Três salgados por um real, seis panos de prato por cinco reais e uma calcinha por um real e cinquenta centavos fazem do pequeno trecho da Avenida São Paulo, entre as ruas Benjamin Constant e Sergipe, no centro de Londrina, um feirão de pequenos negócios. Gente que sai do Terminal Urbano e caminha em direção ao Calçadão da cidade já nem liga para o inconveniente de ter que se esgueirar entre barracas e pessoas que fazem compras ou tomam um lanche. Nem o cheiro forte de óleo queimado, o mesmo que fez a fritura daqueles salgados ‘‘três por um’’, incomoda.
Parece predominar no trecho uma espécie de compreensão inconsciente. Quem se esgueira no meio dos camelôs está a caminho do trabalho conseguido e mantido com muito esforço, em troca de um salário nem sempre justo. E aqueles que ocupam as calçadas do local com suas bancas improvisadas estão, da mesma forma, na luta. São, em sua maioria, personagens de uma história de dificuldades e batalhas que se tornou mais intensa, provavelmente, com o desemprego. Como Carlos Rogério.
Ele tem um ponto bem na esquina da Sergipe com a São Paulo, encostado na quina de um estabelecimento bancário. A sua mercadoria, nesta época de combate ao fumo, poderia ser um equívoco: cigarros e isqueiros trazidos do Paraguai. Mas quem é que, depois de sustentar o vício por décadas, vai deixar de dar umas pitadas agora, na fila do banco para sacar a aposentadoria? É nesse público consumidor que Carlos Rogério aposta, os aposentados.
São os idosos os principais clientes do vendedor e pelo calendário dele, o período de 1º a 15 de cada mês é o melhor para as vendas. Sem a ida dos aposentados para os bancos a partir do dia 15, as chances de Carlos Rogério negociar um pacote de cigarros são mínimas. ‘‘Não compensa nem ficar no ponto. É quando eu saio pelos bairros vendendo isqueiros nos bares’’.
Casado e com três filhos, Carlos Rogério fatura com a venda de cigarros e isqueiros paraguaios cerca de R$ 300,00 brutos, dos quais metade vai para o pagamento do aluguel, da água e da energia elétrica. Há cinco anos no ponto, ele tem consciência que os camelôs ocupam um espaço público e chegam a atrapalhar os pedestres. Por isso, faz parte do grupo de vendedores que há meses tenta pressionar o poder público a providenciar um local adequado para os camelôs.
Também conscientes do transtorno que causam, os companheiros de Carlos Rogério temem, além disso, os estragos que a chuva ou o sol possam provocar em suas mercadorias precariamente expostas na calçada. Alguns vendem frutas, outros comercializam presilhas para cabelos, lenços, enfeites imantados, almofadas e até quadros: times de futebol, santos, personalidades da tevê têm seus retratos reproduzidos e enfeitados com molduras de baixo custo. Cintos, chinelos, bolsas e material escolar também entopem o lugar, transformando o aspecto visual do trecho em algo horrível. Uma plaqueta anuncia um dentista popular. Uma fachada de loja oferece produtos a R$ 1,99. Um antigo prédio, desocupado, expõe cruamente a face feia do abandono.
Bem em frente, Maria Aparecida Andrade, 60 anos de vida, mas apenas 57 no registro de nascimento, vende seis panos de prato por R$ 5,00. Para cada peça, que ela vai buscar em São Paulo, a mulher tem lucro de apenas R$ 0,13. Mas por mais do que isso Maria Aparecida não pode vender, por causa da concorrência. Viúva, ela entrou no negócio depois de vender todos os móveis que tinha. Com o dinheiro foi ao Paraguai comprar mercadorias para vender em Londrina. Teve todos os produtos apreendidos, respondeu processo e, como condenação, cumpriu até recentemente pena alternativa em uma instituição de menores. Além de trabalho voluntário, era obrigada a contribuir mensalmente com uma pequena taxa.
Hoje mora na casa da única filha, casada, mas tem a esperança de um dia ter o seu próprio lar. Está tentando, inclusive, a aposentadoria, mas a diferença entre a data em que ela nasceu e o registro de nascimento complica tudo. Segundo dona Maria, a mãe atrasou o registro e para não pagar multa fez a certidão de nascimento três anos depois, como se a filha tivesse acabado de nascer. É dona Maria, que vende panos de prato na calçada e ocupa o lugar dos pedestres, que tem que pagar hoje por esse atraso.

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