Os lojistas do Camelódromo Popular de Londrina tiveram uma surpresa ao se reunir, ontem de manhã, em frente ao local, que tem sido ponto de partida dos protestos realizados desde quinta-feira. Os manifestantes receberam uma notificação judicial, determinando que eles se ''abstenham de praticar atos que impeçam o funcionamento dos estabelecimentos comerciais''. O não-cumprimento da medida, determinada pela juíza Fabiana Bressan, implicaria em multa diária de R$ 10 mil.
Porém, segundo Rogério Gonsales, presidente da ONG Canaã, que representa os camelôs, a medida não mudou os planos da categoria. ''Para nós, isso não significa nada porque já tínhamos determinado e divulgado, na noite anterior, que hoje faríamos uma passeata pacífica apenas para agradecer o apoio dos comerciantes e da Polícia Militar, sem pedir o fechamento das lojas'', comentou, acrescentando que nenhum estabelecimento havia sido obrigado a fechar. ''Em nenhum momento algum de nós pegou a porta e fechou. Nós apenas pedimos para fechar'', esclareceu.
Gonsales informou que o Camelódromo deve reabrir a partir de segunda-feira, mesmo sem as mercadorias. ''Vamos abrir para que as pessoas possam ver o estado em que ficaram as lojas. Quem tiver mercadorias também vai poder vender'', afirmou. O presidente da ONG acrescentou que na semana que vem os comerciantes vão começar a apresentar suas notas fiscais à Receita Federal para recuperar as mercadorias. ''Para quem não tiver todas as notas, deve existir uma maneira de legalizar, pagar os impostos, para recuperar os produtos'', sugeriu, sem conseguir prever quando as atividades no local serão normalizadas.
Mais uma vez, ele criticou a ação da Polícia Federal e Receita Federal, apreendendo todas as mercadorias sem distinção e sem a presença dos proprietários. ''Isso só mostra que não compensa trabalhar legalizado. Se tivesse apenas um ilegal aqui, todos seriam prejudicados da mesma forma'', avaliou.
Fernando França, proprietário de uma loja de sapatos no Camelódromo, concordou. ''Eu disse que estava legalizado e só trabalho com produtos nacionais, mas os policiais me disseram que iam levar tudo porque eu estava trabalhando em uma área de risco. Então, se eu estivesse na rua não teriam pegado, o problema é estar dentro do Camelódromo'', concluiu.
Os manifestantes fizeram o mesmo percurso do dia anterior, mas em número bastante reduzido. ''Agradecer o quê? Não tem nada pra agradecer. Tínhamos que fechar tudo de novo'', justificou uma vendedora que se recusou a participar. Segundo informações da Polícia Militar, enquanto na sexta-feira o protesto reuniu cerca de mil pessoas, ontem o número não chegou a um quarto disso.
Apesar de ser anunciado a todo momento no carro de som que o objetivo, ontem, era agradecer ao apoio dos comerciantes por ''baixarem as portas'', muitos lojistas contaram que fecharam as portas mais por medo do que por apoiar o movimento. ''A gente apóia, lógico, mas fechamos as portas por medo'', revelou uma vendedora. ''Não tenho confiança de abrir hoje. A maioria fecha mais por medo do que por apoio'', afirmou o relojoeiro Manuel Campinha. Para ele, mesmo com as portas abertas não adianta muito. ''As pessoas ficam com medo de vir ao Centro por causa da manifestação'', explicou. Foram poucos os lojistas que apoiaram irrestritamente o protesto. ''Alguém tem de agir, só assim é possível resolver alguma coisa nesse País'', alegaram os comerciantes Mara e Emir Bueno.
Receosos, algumas poucas lojas recusaram-se a abrir as portas, mesmo diante da insistência dos manifestantes, que garantiam que não iam fazer nada contra o estabelecimento. Novamente, as três farmácias Vale Verde do Centro foram alvo de recriminações por parte dos manifestantes, afirmando inclusive que seu novo lema agora é ''Vale Verde não!''.

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