Definido em lei federal como prática esportiva, o rodeio tem se mostrado uma atividade comercial promissora na cidade de Cambé, Região Metropolitana de Londrina (RML). Mas é justamente o não cumprimento de uma série de aspectos legais que revela um outro lado disso que para muitos, naquela cidade, é uma das poucas opções de lazer disponíveis: o rodeio que se alastra por lá é o do tipo clandestino. Ou, no linguajar do meio, ‘‘rodeio pirata’’.
A FOLHA esteve em dois desses eventos, no último domingo, em pontos diferentes do município. Chamam a atenção não apenas a ausência de aparato médico - e vale lembrar que não são poucos os riscos desse tipo de esporte - como também de infraestrutura adequada: é como se apenas a arena com os peões e os touros, mais o público, fossem os aspectos imprescindíveis da ‘‘festa’’.
Os rodeios visitados pela reportagem acontecem no terreno de uma chácara no Jardim União, quase às margens da PR-445, e em um sítio na estrada da Bratislava, já próximo à divisa Cambé-Rolândia. Em ambos, o primeiro ponto em comum é a explicação de que se trata de um ‘‘treino de peões’’ interessados em disputar as provas de um rodeio profissional. Minutos de conversa, porém, deixam escapar que a montaria não apenas rende premiação como também, para montar, é necessário o pagamento de uma taxa - variável entre R$ 20 e R$ 30.
Tanto o público - a maioria das pessoas a caráter, no estilo country - como os peões são de Cambé e de cidades vizinhas. Boa parte vai de carro; vários são de Londrina, onde, explicou um dos peões do Jardim União, rodeio do tipo acontecia, há vários anos, no bairro Jamile Dequech e na Fazenda Refúgio (Zona Sul).
‘‘Peão é como formiga, é só cutucar que sai um monte. Eu sou peão desde os 16 anos, na Fazenda Refúgio’’, conta Bruno Crespo, 28, que, fora dali, é motorista. Se não teme os riscos? ‘‘A gente fica meio receoso sim, sabe que é uma brincadeira perigosa, mas motocross e paraquedismo também são’’, compara.
Sanderson Moreira, 25, operador de máquina em Londrina e também peão, conta que o ‘‘treino’’ ali no União não é mero hobby: ele quer disputar profissionalmente. Já Sadao Maruyama, 55, comerciante ali nas redondezas, assiste a tudo - ‘‘pela primeira vez’’, garantiu - com ressalvas. ‘‘É perigoso, nem ambulância perto tem’’. Para o salva-vidas de rodeio Luiz Fabiano dos Santos, 26, o ‘‘Pirilampo’’, sair de Muritinga do Sul (SP) para o ‘‘treino’’ em Cambé compensa. ‘‘É treinar e ir direto para o rodeio’’.
Um dos sócios do rodeio no União (o outro ele diz ser de Londrina), Sandro Freitas, 31, explica que o local foi armado há dois anos por uma questão de ‘‘necessidade’’. Os animais, conta, são dele e do sócio. Como funciona? ‘‘O pessoal (que monta) faz um bolão e rateia a grana em primeiro, segundo e terceiro lugar, em um total de R$ 150, em média. Ou monta para treinar. Vem mais gente que está começando, mas os animais são a mesma coisa de rodeio de verdade’’, afirma. ‘‘A única diferença é o glamur’’.
Freitas conta que um rodeio desses, ali, rende uma média de 200 a 300 pessoas, com entrada gratuita; frisa que menores de idade não entram na arena e que já houve domingos de se reunirem 25 animais. A organização promove ainda venda de bebidas. ‘‘Mas nunca tivemos problemas’’, assegura.

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