Cambé apura denúncia contra PMs
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quarta-feira, 21 de janeiro de 1998
Lúcio Horta 
A delegada Geane Aparecida Felício dos Santos, de Cambé, abriu inquérito policial para apurar denúncias de espancamento supostamente praticado por policiais militares contra o pedreiro Edvaldo Mesquita, 23 anos. Ele diz ter apanhado no último domingo de pelo menos dois soldados da PM, entre eles José Roberto Rigoni, que mora e trabalha em Cambé. O irmão de Rigoni, Batista Rigoni, que não é policial, também teria participado do espancamento.
Geane dos Santos diz que vai intimar o pedreiro para que ele aponte exatamente quem são os agressores e como o fato ocorreu. Depois pretende ouvir os acusados. A delegada esclarece também que, quando Mesquita foi conduzido pelos PMs até a delegacia de Cambé, para averiguação de elemento suspeito, ela não se encontrava no local e só ficou sabendo do caso no dia seguinte. Quem atendeu a ocorrência foi um policial plantonista. Mas o rapaz não chegou a ser preso, observa a delegada, já que não havia indícios de infração penal praticada pelo pedreiro.
Edvaldo Mesquita apontou José Roberto Rigoni como principal agressor. O problema teria sido causado por uma transação comercial, envolvendo uma motocicleta do PM. Rigoni (à paisana) e o irmão dele teriam espancado o pedreiro, alegando que ele teria furtado o veículo, e depois chamado a polícia. Quando a viatura chegou, Rigoni e os policiais que estavam no plantão teriam levado Edvaldo Mesquita para um sítio em Cambé, onde ele apanhou ainda mais.
Mesquita apresentava anteontem escoriações por todo o corpo, principalmente marcas de pancadas nas costas e pernas, além de ferimentos nos dedos e supercílios. A família garantiu que iria entrar na Justiça contra os agressores.
Os soldados da PM que levaram Edvaldo Mesquita até a delegacia, no domingo à noite, são conhecidos por Damasceno e Adriano. Este último ainda é acusado de ter agredido o menor F.A.S., 16 anos, também no domingo. O menor disse que apanhou dentro do módulo policial do jardim Santo Amaro, em Cambé. Além de Adriano, outros dois PMs teriam participado do espancamento, mas o garoto não soube dizer os nomes. A denúncia foi encaminhada até o 5º Batalhão da PM, em Londrina, que abriu procedimento disciplinar para identificar os policiais e apurar a acusação.
José Roberto Rigoni não quis falar à imprensa sem autorização do comando da PM. Mas a irmã dele Maria das Graças Rigoni Machado ligou ontem para a Folha e contestou a versão do pedreiro. Segundo ela, Edvaldo Mesquita teria insistido durante uma semana para comprar a motocicleta do irmão. Ele disse que queria a moto para trabalhar com entrega de marmitex. Meu irmão acabou ficando com dó e vendeu. Só que ele não pagou, aponta.
No domingo, segundo Maria Machado, Rigoni teria procurado Edvaldo para saber se ele iria pagar ou devolver a moto. Encontrou o irmão dele, Edmar Mesquita. Este, por sua vez, indicou que o rapaz talvez tivesse em São Sebastião da Amoreira, no sítio de um tio. Os dois foram para lá, onde souberam que Edvaldo teria sofrido um acidente de automóvel. Meu irmão voltou para Cambé e descobriu que ele estava escondido na casa da mãe dele, diz Maria.
Ela conta que Mesquita teria prometido devolver a moto segunda-feira. Na sequência, pediu carona para Rigoni, que é evangélico, até a igreja do bairro. Ele começou a enrolar meu irmão de novo, que já estava acreditando. Segundo a irmã de Rigoni, Mesquita costuma comprar veículos em Cambé, vende para terceiros e não paga o proprietário original. Ele tem muitas vítimas aqui. Quando a coisa aperta, a mãe dele o esconde em São Sebastião da Amoreira. Ele nunca trabalhou, não é pedreiro coisa nenhuma.
O problema de domingo, segundo Maria Machado, começou quando outro irmão dela, Batista Rigoni, viu os dois juntos, no percurso entre a casa de Edvaldo Mesquita e a igreja. Ele ficou bravo porque sabe que se trata de um trapaceiro. Aí pediu para parar, deu uns dois ou três tapas e segurou o rapaz, até que meu irmão (o soldado) fosse chamar a viatura. Aí a PM chegou e levou o rapaz até a delegacia. Se a PM bateu nele depois a gente não sabe. Mas meu irmão não encostou um dedo nele, garante Maria Machado. Segundo ela, Rigoni já está contratando um advogado para se defender das acusações contra ele.


