A temperatura é de três graus negativos. É madrugada no 3º Distrito Policial, no bairro Mercês, em Curitiba. Cerca de 120 presos se acotovelam para dormir nas 20 celas que formam o xadrez da delegacia. A superlotação é esquecida por algumas horas. Não pelo sono, mas por causa do frio que invade o ambiente. As paredes e o chão, cobertos apenas pelo reboco de concreto, aumentam ainda mais a umidade.
Por falta de beliches, cerca de 100 presos são obrigados a dormir no chão. O que os separa do cimento é um colchão fino de espuma e cobertas surradas. O material é de ex-detentos ou doado por familiares. Quem fica com as camas também está em desvantagem perante o rigor do inverno. Elas são de concreto embutido nas paredes. Ao perceberem a presença da reportagem dentro da cadeia, os presos não hesitam e gritam: ‘‘Tá faltando médico aqui pra gente, isso aqui tá muito frio.’’
Mesmo em dia de sol, o interior do prédio do 3º DP continua gelado. Nossa equipe é recebida pelo delegado titular, Agenor Salgado. Ele acompanha a reportagem na carceragem, sem antes também reclamar da baixa temperatura que faz na cidade. Salgado parece ter o respeito dos presos, que dirigem a ele pedidos para médicos e psicólogos. Para evitar a entrada de correntes de ar, o delegado menciona que os funcionários da delegacia cobriram as frestas e grades externas com lonas plásticas. Não deu muito certo.
O detento Adriano de Souza, 27 anos, diz que as condições no inverno pioram. ‘‘O frio é bastante porque o chão e as paredes são muito geladas’’, afirma. ‘‘Falta muito colchão e coberta pra gente aqui dentro.’’ Souza é o guia da Folha e mostra como os presos descansam nos dormitórios improvisados no chão. Aponta para o corredor e mostra dois detentos enrolados num único cobertor. ‘‘Aqueles ali tem que dormir juntos para se aquecer. Faz muito frito e falta cobertor pra eles.’’
Quando o frio chega, o jeito é apelar para os familiares. O detento Márcio de Araújo Costa, 21 anos, conta que os parentes auxiliam com doações, outros presos, que não recebem visitas. ‘‘Nessas horas, um acaba ajudando o outro aqui dentro.’’

mockup