Mesmo com a proibição da pró-reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que vetou a aplicação de trotes na semana de volta às aulas da universidade, calouros de um dos cursos passaram por brincadeiras aplicadas por veteranos na manhã de ontem, em Curitiba. Os novos alunos participaram voluntariamente do trote.
O trote começou no pátio da Reitoria de UFPR, na região central da cidade, com todos os calouros em círculo cantando uma música (com uma letra dizendo "Quero passar a mão no seu fogão/ fritar o seu pastel, mas que delícia/ mas não se preocupe, é sem malícia"), enquanto as mãos eram passadas nos corpos alheios. Em seguida, os alunos tiveram os rostos pintados e foram levados a um sinal de trânsito a duas quadras da reitoria, onde pediram dinheiro para os motoristas que passavam.
Mesmo com a permissão dos calouros e a não-utilização da violência na aplicação das brincadeiras, a atitude foi considerada irregular pela pró-reitora de Assuntos Estudantis da UFPR, Rita de Cássia Lopes. "O trote é considerado um rito de passagem, mas tudo o que gera um transtorno físico e moral não é validado pela universidade", diz. Referente ao trote, no entanto, a universidade só irá tomar providências caso haja alguma denúncia de abuso durante a aplicação das brincadeiras.
Mesmo sem obrigar os calouros a participar, Rita de Cássia diz que o ato de pintar os rostos e colocar os novos alunos para pedir dinheiro em sinais de trânsito estava proibido pela universidade. "Ninguém pode dizer que não estava sabendo", afirma a pró-reitora, referindo-se ao conhecimento dos veteranos sobre a proibição do trote.
Material enviado pela assessoria de imprensa da UFPR, antes do início das aulas, confirmava que "ações como pedir dinheiro nos sinaleiros e brincadeiras que sujem os calouros estão proibidas". O texto continua, esclarecendo que "não serão admitidas quaisquer manifestações, que possam ocasionar constrangimento, transtornos físico e/ou moral aos calouros. Caso ocorram abusos, haverá punição aos culpados, o que pode significar inclusive a expulsão da UFPR". Menos extremas que a expulsão, as punições podem ser ainda a advertência ou a suspensão dos responsáveis pelo trote.
Ainda acordo com a pró-reitora, as ações realizadas fora das dependências da UFPR também não estavam permitidas e são consideradas contrárias às normas da instituição. "Estas ficam a cargo da segurança pública", diz Rita de Cássia. Ela explica que dentro da universidade há o regimento interno, que determina o acompanhamento das atividades no retorno às aulas -e dos possíveis trotes. A fiscalização é realizada por meio de comissões setoriais formadas por servidores, professores e alunos. Cada curso tem sua própria comissão.
Solidário

Para tentar conter os trotes violentos, a UFPR organizou uma série de atividades para evitar problemas no início do ano letivo. O chamado "trote solidário" prevê atividades sociais, como a pintura de escolas públicas, arrecadação de livros, apresentações artísticas e gincanas. Cada curso tem suas diretrizes para realizar a recepção dos novos alunos. Rita de Cássia conta que a mudança da cultura do trote violento para o solidário é um processo que a UFPR instituiu, mas que é necessário um tempo de transformação para ser seguido de fato. "Isso requer grande movimentação da sociedade e da universidade", diz.
Vários cursos já adotaram o trote solidário. Os calouros de Engenharia Civil, por exemplo, participam de uma série de conferências e de visitas a laboratórios. Na manhã desta quinta-feira, vão pintar a fachada da Escola Municipal Foz do Iguaçu, no bairro de Santa Felicidade. Já o curso de Pedagogia vai realizar uma campanha de arrecadação de roupas e alimentos para doar a entidades beneficentes de Curitiba.
A aula inaugural do ano letivo seria realizada na noite de ontem, no auditório do Setor Escola Técnica, com a presença do reitor da UFPR, Zaki Akel Sobrinho. Para este ano, o número de calouros da UFPR aumentou 27% em relação ao ano passado. São 1.105 novas vagas. A maioria delas estão entre os 21 novos cursos criados na instituição pelo governo federal. Além dos calouros, outros 25 mil alunos de graduação e de pós-graduação retornam às aulas nesta semana.

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