Um grupo de cinco portadores de deficiência auditiva (surdos-mudos) conseguiu passar em Pegadogia no vestibular do Centro de Estudos Superiores de Londrina (Cesulon). Para efetuar a matrícula e fazer o curso, entretanto, estão enfrentando dificuldades muito maiores do que o aparenteproblema físico-orgânico: a incapacidade financeira.
César Grígio, 33, Célia Aparecida da Silva, 31, Beatriz dos Santos Pereira, 29, Cleusa Camargo de Oliveira, 31, e Geraldo Ricardo Miranda, 28, estão eufóricos e empolgados com a aprovação no vestibular. Mas temem perder a oportunidade de fazer o curso superior.
Eles não têm recursos para pagar a matrícula - de R$ 236,00 - nem as mensalidades do curso - no mesmo valor. O prazo para a matrícula é amanhã. Se não se matricularem, perdem a vaga para outros candidatos. Por isso, esperam contar com alguma ajuda.
Os surdos-mudos não querem piedade. Eles acreditam que têm capacidade para trabalhar e serem produtivos. Sentem-se em condições de desempenhar normalmente qualquer atividade profissional que não exija o sistema audiofonético. Querem apenas uma oportunidade para demonstrar que têm valor e que podem se integrar à sociedade.
‘‘Se, de um lado, a deficiência os incapacita para ouvir e falar, por outro, lhes dá maior capacidade de concentração. Isso certamente pode ser explorado em alguma atividade profissional’’, argumenta Nídia Valente Costa, coordenadora do Grupo Lição de Amor, da 1ª Igreja Presbiteriana de Londrina, que trabalha com deficientes auditivos e está auxiliando o grupo de calouros.
De acordo com Nídia, inicialmente as atividades do Grupo Lição de Amor tinham objetivos apenas espirituais. Mas, com a interação e o conhecimento mais profundo dos problemas e potenciais dos surdos-mudos, o trabalho foi ampliado e hoje atua no sentido de integrá-los totalmente, entre si e na sociedade.
‘‘Nosso trabalho não se limita aos membros da igreja nem aos seus problemas específicos. Fazemos o possível para integrá-los à vida social, desde a formação escolar e profissional até o ingresso no mercado de trabalho’’, detalha a coordenadora do grupo, acrescentando que muitos portadores desta deficiência já estão trabalhando normalmente. (Veja texto nesta página).
É o caso de quatro dos cinco calouros. César Grígio, 33 anos, é eletrotécnico. Célia Aparecida da Silva, 31, manicure. Beatriz dos Santos Pereira, 29, é funcionária da Polícia Federal. Cleusa Camargo de Oliveira, 31 anos, é instrutora de linguagem de sinais (alfabeto dos surdos-mudos) no Instituto Londrinense de Educação para Surdos (Iles). Somente Geraldo Ricardo Miranda, 28 anos, está desempregado.
‘‘Infelizmente, não basta o emprego, pois a maioria já trabalha. Precisam de colocações com maiores salários ou uma complementação, como bolsa de estudos’’, ressalva Nídia, apresentando o endereço para quaisquer contribuições. O contato pode ser feito pelo telefone (043) 324-7443, ou na Igreja Presbiteriana Independente, que fica na Rua Mato Grosso, 806, entre as ruas Espírito Santo e Pará (área central).
Apesar de três dos cinco calouros já atuarem no mercado de trabalho, o pouco que ganham está comprometido com o sustento, o que impossibilita fazer a matrícula e pagar as mensalidades do curso.
Empolgados com a possibilidade de fazer um curso superior, eles dizem que escolheram o curso de Pedagogia exatamente porque nesta área vão ter a oportunidade de auxiliar outros surdos-mudos. ‘‘Os calouros estão radiantes de felicidade com a possibilidade de demonstrar para outros surdos-mudos que é possível levar uma vida normal, apesar da deficiência’’, destaca Nídia, traduzindo os sinais de César Grígio. ‘‘Nós também somos capazes - e em algumas atividades talvez até mais do que as pessoas consideradas normais. é preciso apenas que acreditem em nós’’, emenda Célia Aparecida.
Se conseguirem se matricular e fazer o curso, os calouros especiais do Cesulon esperam a colaboração de colegas, professores e da própria escola. ‘‘Sabemos que vamos enfrentar dificuldades. Mas podemos garantir que não vai faltar boa vontade’’, diz Célia, destacando que já deram a sorte de contar com a contribuição de Josiane Júnio Facundo, 19 anos, que trabalha com deficientes visuais e já aprendeu a linguagem dos sinais. Josiane também passou no vestibular e vai cursar Pedagogia no Cesulon.
‘‘Esperamos que daqui há quatro anos, quando teremos concluído o curso, os deficientes auditivos tenham mais facilidade para estudar e se preparar para a integração na sociedade’’, enfatiza César. ‘‘Pois seremos pelo menos cinco professores especializados e dispostos a dar esta contribuição’’, acrescenta. ‘‘Este é o caminho para que um número maior de portadores de condições especiais possam se integrar. Mas para isso é necessária a contribuição de toda a sociedade’’, completa Célia Aparecida da Silva.

mockup