Entre o fim dos anos 50 e o início dos 60, milhares de bahá'ís se espalharam pelo mundo numa espécie de cruzada religiosa incentivada pela liderança mundial. Parte deles veio para o Brasil, como os pais do empresário Omid Afnan, 49 anos, membro do corpo administrativo da assembleia de Curitiba. ''Os próprios fiéis são o elo de divulgação da Fé. Por isso não temos um canal de televisão, não falamos para multidões'', afirma.
Omid explica que não existe um clero na comunidade, tampouco sacerdotes remunerados. Sendo assim, os seguidores devem estudar e se capacitar para ensinar outras pessoas. Os encontros mais frequentes acontecem nas festas dos 19 dias, ocasiões em que os bahá'ís se socializam, rezam e tratam de assuntos administrativos. Em tempo: o calendário do bahaísmo é organizado em 19 meses de 19 dias, que somados dão 361 dias - os quatro restantes são destinados à caridade.
Também não há dogmas rígidos, somentes princípios semelhantes aos de outras religiões. Os fiéis devem fazer contribuições financeiras (sem valor estipulado) e respeitar a castidade até o casamento, que deve ser aprovado pelas duas famílias envolvidas. O divórcio, o consumo de substância entorpecentes e o homossexualismo são condenados.
O bancário Adib Shaikhzadeh, 26, jamais colocou uma gota de álcool na boca. E por ser solteiro, ainda não iniciou sua vida sexual. ''Bahá'u'lláh escreveu que o homem e a mulher formam um pássaro. Eles devem bater as asas juntos, com a mesma força'', diz o rapaz, de família iraniana, que passou o ano de 2003 em Israel, fazendo trabalhos voluntários na Casa Universal da Justiça.
Mas ninguém será excomungado se infringir uma dessas regras. Omid, por exemplo, é separado e tem um filho com a segunda mulher. Mesmo os gays não podem ser segregados, pois Bahá'u'lláh não admitia o preconceito.
Em meados de janeiro, bahá'ís de todo o Brasil se reuniram em Curitiba para três dias de estudos intensivos. O encontro, ao contrário do que se possa pensar, não contou apenas com descendentes de iranianos. ''Esta é a religião mais atual que existe'', orgulha-se o engenheiro Everson Poletto, 50, um ex-católico de origem italiana. ''Conheci a Fé há 15 anos, e nem por isso preciso esquecer que fui cristão'', emenda.
Aceitação
O publicitário Gabriel Marques, 52, veio de Salvador especialmente para o evento. Lá, ele conta, o caráter ecumênico do bahaísmo é ainda mais forte. ''Nossa comunidade é composta por 80% de baianos nativos. Então é comum que as reuniões tenham elementos do cristianismo e até mesmo tambores do candomblé'', revela.
Nascido numa família de católicos convictos e praticantes, Gabriel conheceu a Fé nos anos 70, quando se encantou com a ''forma aberta de conversar'' dos seguidores. Ele não usa o termo ''conversão'', e sim ''aceitação''. ''É que você não deixa uma coisa para entrar na outra'', diz, reafirmando o conceito bahá'í de que religião é continuidade.
Quanto à ideia de uma civilização mundial (que para muitos representa uma ameaça à diversidade), o publicitário acredita que este é um caminho natural na evolução da humanidade. ''Primeiro veio o indivíduo, depois a família, a tribo, a nação... O próximo passo é a planetização'', afirma.
Isso significa que o apocalipse, tão anunciado por outros credos, não está próximo? ''Com certeza, não. Nesse sentido, a Fé é a única religião que tem uma visão positiva do futuro'', conclui. (O.G.)

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