Caldo-de-cana sumiu da cidade
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sábado, 23 de agosto de 1997
Morretes 
Morretes, conhecida por sua pinga de boa qualidade, vive hoje uma contradição. Atualmente a cidade mais vende destilados do que produz. Não há plantações de cana-de-açúcar o suficiente para abastecer as novas indústrias instaladas no município, que trazem o líquido já processado de outros locais do País.
Como não há mais plantações em larga escala, também está em extinção na cidade outro produto da terra, a garapa. Quem viajava pela Estrada da Graciosa, antes da abertura da BR-277, tinha duas paradas obrigatórias até chegar ao Litoral, cerca de cinco horas depois. No Bar do Japonês, no alto da serra, para um café, e em Morretes, para um caldo-de-cana. Contam-se nos dedos, hoje, os lugares em que se encontra a bebida na cidade. O Bar do Japonês fechou. O caldo-de-cana no meio da viagem mudou de local - foi para a BR-277. Calcula-se que 80 mil pessoas passem por mês pela Graciosa, no verão. Pela rodovia chegam a passar 3 mil carros por hora, nos feriados.
Odival Leal, o Diquinho, diz que nos bons tempos seu pai tinha cinco dornas, cada uma com 5 mil litros de cachaça. Ele abriu a Fábrica de Aguardente em 1955, animado talvez com o progresso da cidade. Em 1950, a década dos bons tempos de que fala Diquinho, o município tinha 10.566 habitantes. De 1950 a 1955 as receitas federal, estadual e municipal somaram Cr$ 43,5 milhões (equivalentes a R$ 13 milhões). A receita em tributos atingiu Cr$ 2,1 milhões (cerca de R$ 630 mil) e os gastos foram de Cr$ 5,9 milhões (aproximadamente R$ 1,7 milhão).
Nesta década havia o Cine-Teatro Municipal com 400 lugares, 39 indústrias, 134 varejistas, dois atacadistas, um banco, 37 escolas primárias, a Escola Técnica de Comércio, o Ginásio Estadual Rocha Pombo, 600 edificações com luz, uma rede telefônica com 50 aparelhos, água em 225 casas, uma rede de esgoto com 4,6 quilômetros e hospital.
Aí vieram as exigências que meu pai não tinha condições de cumprir, lamenta Diquinho. Tinha que ladrilhar paredes, trocar o teto do engenho - que fica preto e com goteiras escuras, resultantes da queima do bagaço de cana -, tinha que isso e tinha que aquilo. Sem contar com a preocupação com a concorrência do produto industrializado, que sempre teve preço mais baixo. Não havia como competir, diz.
Os cilindros de aço que chegaram a esmagar cinco toneladas de cana por dia, produzindo 350 litros de cachaça, estão parados. Em uma hora, segundo Diquinho, os cilindros moíam uma tonelada. Os tonéis dentro do engenho estão vazios e a bica por onde escorria a aguardente, depois de passar no tombo-dágua (serpentina de decantação), está com teias de aranha. Tudo está no seu lugar, em silêncio, no interior do engenho. O mesmo silêncio em que encontramos mais tarde Jaime, sentado sozinho no escuro, imóvel entre os tonéis, como se participasse de um museu de cera, como se estivesse esperando um aviso, uma ajuda para salvar com dignidade as memórias que o cercam. (P.J.S.)


