Por que o motorista londrinense estaciona na calçada? A resposta é uma incógnita, mas sabe-se que nem as multas, nem os pontos na carteira de habilitação inibem a prática da infração, que empurra os pedestres em direção à perigosa caminhada pelas ruas devido à falta de espaço e aos danos que carros e até mesmo caminhões provocam no calçamento.
A infração está prevista no artigo 181-8 do Código de Trânsito Brasileiro e, segundo o soldado Ailton Akira Umeno, da Companhia de Trânsito (Ciatran) de Londrina, é grave. São cinco pontos na carteira de motorista e multa de aproximadamente R$ 130,00. Penas ignoradas pelos infratores, que recheiam as estatísticas em Londrina. Desde janeiro, 156 autos de infração foram lavrados somente pela polícia. ''São números altos, indicando um problema sério'', diz Akira.
Os números seriam ainda maiores se fossem computadas as infrações em que a polícia negocia a retirada do veículo das calçadas e os autos lavrados pelos fiscais da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU). O gerente de Trânsito da companhia, Álvaro Grotti, disse não ter acesso a tais estatísticas, mas garantiu que o problema é maior na Área Central, onde pedestres como Nilton de Souza Oliveira têm que encarar o problema diariamente.
''Acho que já foi pior. Mas isso não é só no centro, não. Nos bairros, é comum as pessoas voltarem para o almoço e deixararem os carros atravessados na frente da garagem'', conta Oliveira, que se encontra nos dois lados do problema. ''Eu mesmo já subi na calçada algumas vezes'', confessa. ''Isso acontece todos os dias. Acho até que o povo não liga mais'', completa o vendedor ambulante Belmiro Dias.
Os problemas se agravam quando motoristas de caminhões são os infratores. Em uma lavanderia na Rua Goiás (Área Central), o proprietário Fábio César também admite o erro, explicando que os motoristas dos caminhões são obrigados a parar em cima das guias. ''Lavo roupas de hospitais. Por estarem contaminadas, sou obrigado a descarregá-las na porta da lavanderia. Isso me deixa sem escolha'', justifica. O saldo da manobra é sentido pelos pedestres: calçadas quebradas e nenhuma multa até hoje.
Em poucos minutos de caminhada pelo Centro de Londrina, a reportagem da Folha flagrou pelo menos três infrações do tipo. Um dos motoristas foi abordado, mas reagiu com indignação ao questionamento. ''Então me mostre onde eu posso parar meu carro!'', como que indicando a causa para o problema: a falta de vagas para estacionar.
Grotti concorda com o apontamento do motorista. ''A frota londrinense tem um ritmo de crescimento bem superior à nacional. As ruas de Londrina ganham 12 mil novos carros por ano. Temos um carro para cada 2,5 pessoas, enquanto o índice brasileiro é de um para quatro'', justifica. ''E o pior é que, teoricamente, o problema da falta de espaço não tem solução e só tende a aumentar.''
Incentivos ao uso do transporte coletivo e a descentralização dos pólos comerciais seriam iniciativas que, segundo Grotti, amenizariam o problema. ''Isso diminuiria o número de carros nas ruas e faria com que o trânsito se deslocasse para outras áreas'', explica. ''Mas nada disso vai funcionar se a consciência do motorista não mudar. Parece que ninguém quer andar a pé'', conclui.

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