Até 1977, a Avenida Paraná era o ponto de referência quando se falava de Londrina. Naquele ano, a cidade parou para discutir a necessidade de uma obra que iria fechar a grande artéria para o trânsito. Depois de certa resistência, o Calçadão da Avenida Paraná finalmente saiu do papel e continuou sendo um ponto de convergência. Agora, em virtude da falta de manutenção, o espaço está sendo reformado e a expectativa é que as obras sejam concluídas até dezembro, ainda em tempo para as festividades do Natal.
Um dos espaços mais democráticos da cidade, senão o mais, o Calçadão recebe a todos, sem exceção. Por ele passam os gritos das manifestações e protestos dos descontentes; é onde as minorias mostram suas caras; onde os políticos acalentam sonhos de campanha, comemoram vitórias e lamentam derrotas; onde as mazelas sociais ganham visibilidade; onde amigos relembram os causos vividos; enfim, é onde o londrinense classe média se sente à vontade.
O porteiro Moacir de Souza, 64 anos, que mora há quase 30 anos na Avenida Paraná, entre as ruas João Cândido e Pernambuco, falou com alegria daqueles tempos. Ele lembrou que o movimento de pessoas, charretes e veículos era bastante intenso naquela época. As vitrines de vidro enchiam os olhos das famílias e dos casais apaixonados. Depois, com a novidade do Calçadão, muitos dos assíduos frequentadores não sabiam muito bem como agir. ''Era engraçado. As pessoas não andavam pelo Calçadão porque estavam acostumadas com os carros.'' E os motoristas, por sua vez, não se entendiam no trânsito e era preciso ficar um fiscal em cada entrada para impedir a passagem de veículos. Só tem uma mudança que Souza acompanha com tristeza: hoje, por causa de assaltos, as pessoas evitam o Calçadão depois que as lojas descem as portas de aço no final do dia: ''todo mundo tem medo''.
A violência das grandes cidades também foi vivenciada de perto pelo engraxate M.R.P., 15 anos, no ano passado, quando um homem trocou tiros com a polícia em um banco no Calçadão. Outra coisa que ele observa com frequência enquanto lustra os sapatos dos fregueses são os tombos e tropeços: ''é o que mais a gente vê por causas dos buracos daqui''. Para o garoto, o trabalho no Calçadão é, por enquanto, a única oportunidade que tem para ajudar em casa. ''Muito melhor estar aqui do que na rua, aprendendo o que não deve''. Enquanto esperava o engraxate terminar o serviço, o comerciante Carlos Humberto Carneiro Lobo, 64 anos, também exaltou as qualidades do Calçadão. ''Toda vez que passo por aqui, acabo encontrando algum amigo.''
E para quem não tem medo de fazer novas amizades, o Calçadão também é opção. Os aposentados Alcides Niero, 79 anos, Sebastião Honório, 77 anos, e o agricultor Antônio Brunetti são amigos há apenas alguns anos e se conheceram nas andanças pelo local. ''Aposentados como nós vamos aonde nessa cidade?'', comentaram. Eles contaram que, antes do calçamento, o tráfego de veículos já atrapalhava bastante o comércio.
Alías, os comerciantes do Calçadão destacaram sua importância para os negócios. ''É o nosso cartão de visitas, mas infelizmente está bem deteriorado'', reclamou o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Londrina (Sincoval), Uzier de Carvalho. O empresário Severo Canziani, proprietário de um shopping em frente à praça Grabriel Martins, questiona ''a revitalização'' anunciada pela prefeitura. ''Na minha opinião é apenas uma operação tapa-buraco'', disse. Ele avaliou que o espaço precisa ter mais opções culturais e artísticas.

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