As manchetes dos jornais estampam a diminuição do desemprego e aumento de oferta de vagas de trabalho. Mas o que chama a atenção, no dia-a-dia, é o esforço que o trabalhador desempregado, ignorante da mágica das estatísticas, faz para ganhar a vida.
José Ataíde Theodoro, 55 anos, resgatou do fundo do baú – ou será da caixa? – a antiga profissão de engraxate. Trabalho que há mais de 20 anos já o ajudava no sustento dele e dos irmãos em São Paulo.
Há cerca de 15 dias instalou seu ponto na esquina das Avenidas Higienópolis e Paraná, área central de Londrina. Ele construiu uma nova cadeira para os clientes, feita com sobras de madeira de construção e garantiu a aprovação da prefeitura. E agora, todos os dias, quem passa por lá encontra José, sua cadeira e uma bíblia; pronto para atender aos clientes e seus sapatos.
Antes José Theodoro vivia de bicos, consertando panelas e guarda-chuvas nas ruas da cidade. Como ele passou a cuidar das duas filhas menores, hoje com 6 e 8 anos, e o único jeito foi deixar de ser ambulante. Quando as meninas não estão na escola, elas ficam com o pai no ponto de trabalho. ‘‘Não dá para deixar elas sozinhas no barraco.’’ Ele e as meninas moram no assentamento Londriville, perto do Conjunto Avelino Vieira (zona oeste).
Há cinco anos, sem emprego e sem poder garantir o mínimo para a família, José foi abandonado pela esposa, que levou a filha mais nova do casal. ‘‘Ela queria mais da vida. Não aguentava mais passar tanta necessidade. Nem briguei porque eu não estava conseguindo mesmo’’, lamenta.
Sem uma qualificação específica, José já foi engraxate no Calçadão, faxineiro de rua e até responsável pela limpeza em uma empresa da cidade. Depois adoeceu com um problema crônico no esôfago – diagnosticado mas não curado. Ficou ainda mais difícil encontrar emprego e o desemprego passou de rotativo a fixo.
Tudo isso levou Theodoro a voltar à sua primeira profissão. Mas com a moda e o conforto dos sapatos em tecido e tênis, ainda há quem queira engraxar sapatos? Ele diz que sim. Ainda não deu tempo de fazer uma clientela, comenta, mas acredita que, com o tempo a procura vai aumentar e, quem sabe, dê até para guardar um dinheirinho para construir uma casinha decente para as filhas.
Por enquanto o que ele ganha engraxando sapatos vem sendo suficiente apenas para colocar comida na mesa. ‘‘Não é muito, mas é o que dá para fazer. É preciso ter paciência.’’ Mas ele não espera sentado não. Além de engraxar sapatos, conserta guarda-chuvas, panelas e faz até pequenos serviços de pedreiro.

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