Os índios caingangue da reserva Boa Vista, localizada nos municípios de Laranjeiras do Sul e Marquinho, vivem uma situação fundiária complicada. A partir da década de 30, os cerca de 300 índios que viviam no local tiveram que ir embora depois que os 11,5 mil hectares foram vendidos pelo governo do Estado para fazendeiros. Mas no ano passado, 40 índios voltaram a ocupar uma área de 60 alqueires no local alegando que as terras pertencem a eles.
Na época, os índios foram paras as reservas de Marrecas (Turvo) e Rio das Cobras (Nova Laranjeiras). A última família, do índio Sebastião Cornélio Seg Seg, saiu da reserva em 1963.
Na semana passada, um dos proprietários recebeu a ordem para a reintegração de posse e foi até o local acompanhado da polícia para a retirada das famílias. Os índios se recusaram a deixar a reserva, mas não houve conflito.
Segundo o índio caingangue Pedrinho Seg Seg, presidente do Conselho Indígena Regional e secretário do Meio Ambiente de Turvo (54 km ao norte de Guarapuava), os índios estão sofrendo ameaças por parte dos fazendeiros, mas não pretendem sair do local enquanto a Funai não realizar uma perícia na área. ‘‘Eles estão fazendo lavouras e não vão sair sem a realização da perícia. Se eles saírem fica mais difícil qualquer ação jurídica para comprovar que as terras são deles’’.
Seg Seg disse também que recentemente um fazendeiro teria tentado atropelar um índio com o carro e que um outro índio recebeu ameaças de que seria queimado caso continuasse pescando no local. ‘‘A situação é tensa. Se acontecer algo de maior gravidade com um índio nós vamos tomar nossas medidas e aí pode acontecer conflito. Tudo isso se deve a falta de agilidade da Funai em ter uma política indigenista mais humana e sadia’’, afirma.
De acordo com ele, a qualquer momento os índios podem ocupar a área onde funcionava o posto índigena e que é sede de umas das fazendas. Seg Seg ressaltou que lideranças indígenas dos estados do Sul estão se mobilizando para organizar um movimento de apoio aos índios da reserva Boa Vista.
O admistrador executivo regional da Funai, Vladinei Tadeu da Silva, disse que os índios tinham concordado em sair da reserva em maio e que eles seriam levados para a reserva de Rio das Cobras. ‘‘Mas eles não querem sair e não podemos tirá-los à força. Como a Justiça determinou reintegração de posse, nós os orientamos para que deixassem a área para evitar conflitos’’, afirmou.
Segundo Silva, em 1995 foi solicitado à Funai o estudo de identificação das terras da área e até agora o trabalho não foi iniciado. ‘‘O que sabemos é que agora a Funai está contratando uma antrópologa para que inicie os trabalhos. Porém, temos consciência de que a situação dessa reserva é uma questão díficil de se resolver. As terras pertencem a vários proprietários e as fazendas estão formadas’’, explicou.
As famílias caingangue da reserva de Boa Vista sobrevivem de pequenas roças. Elas também trabalham para fazendeiros da região, mas encontram muita resistência para conseguir trabalho. Seg Seg informou que os caingangue recebem assistência médica, mas que passam dificuldades para conseguir alimentos.

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