Diz a crença caingangue que o vugá (bicho-da-taquara), quando vira borboleta, não permanece na Terra. Vindo de um reino superior, é para lá que ele retorna quando encerra seu breve ciclo de vida entre os homens. Às vezes, quando o tempo fecha, é possível ouvir o vugá falando, lá do céu, através das trovoadas. Assim contam os índios de hoje, conforme aprenderam com os pais, que ouviram as histórias dos avós e assim por diante, desde tempos imemoriais.
A ''florada da taquara'', evento que acontece somente a cada 30 anos, marca não só a perpetuação de uma crença mas também de um costume, praticado mesmo por aqueles que ainda nem têm idade para entender seu significado. Na última semana, os caingangues da reserva Apucaraninha deram uma prova da sobrevivência desta cultura. Prova que, pela primeira vez, foi documentada pela Secretaria Municipal de Assistência Social e presenciada pela reportagem da Folha.
A taquara, planta semelhante ao bambu, é matéria-prima essencial do artesanato caingangue. A cada três décadas ela floresce e, alguns meses depois, seca e morre. Durante o curto intervalo da florada, os índios realizam a coleta do vugá, larva da borboleta Morpheis smerintha, que se desenvolve no interior da taquara. Com grande valor nutritivo e forte simbologia, a larva é então consumida por todos os caingangues, das crianças aos mais velhos.
No taquaral da Reserva Apucaraninha, os vestígios da coleta maciça do vugá estão por toda a parte. É preciso atenção ao andar na mata, para não se enroscar nas tiras de taquara seca caídas no solo ou penduradas nas árvores. O mesmos facões que, durante os últimos anos, cortaram a planta para fazer artesanato, agora servem para abri-la ao meio em busca do vugá.
Aos poucos os caingangues vão enchendo vasilhas com a larva. Alguns carregam na dobra da própria blusa, outros comem a larva ali mesmo, no taquaral. ''Coró gostoso'', diz uma das crianças, que ainda fala pouco português. Em geral consumido frito na própria gordura, o vugá é um alimento rico em proteínas, que também possui propriedades terapêuticas.
A antropóloga e coordenadora do Programa Municipal de Atendimento ao Kaingang, Marlene de Oliveira, explica que a florada da taquara não é marcada por nenhum ritual com hora delimitada. Por conta própria, os índios se dirigem ao taquaral e executam a coleta e consumo do vugá, sem precisar de permissão. ''Eles vêm a qualquer hora, sozinhos ou em grupos. É um evento que reafirma a identidade individual e coletiva dos caingangues, mesmo com mais de 300 anos de contato com os brancos'', ressalta.
A florada da taquara também é utilizada pelo povo para contagem de idade. Índios como Vanda Ribeiro nem sabem dizer quantos anos tem. A caingangue sabe apenas que presenciou ''duas floradas'', a primeira delas quando tinha 17 anos.
Além de ser apreciado enquanto iguaria, o vugá tem forte valor simbólico na cultura desse povo, sendo associado à longevidade. Quem come a larva, acreditam, vive mais. Na cosmologia caingangue, o vugá aparece como ser divino, que vive a maior parte do tempo num reino superior. ''Minha avó dizia que quando dá trovoada é o vugá que está bravo por alguma coisa. Um índio que não está tomando banho, por exemplo'', recorda o caingangue Antônio Ribeiro, 44 anos, presidente do Conselho Índigena do Paraná.
As mais de duas horas de imagens captadas pela equipe da Secretaria de Assistência Social durante a florada da taquara serão editadas para a produção de um documentário. ''É importante registrar esse evento para as gerações futuras. Mesmo sem contato com os antepassados, elas poderão conhecer suas tradições'', conclui Marlene.

mockup