Todo ano a saga é a mesma. Junta-se a família inteira, alguns utensílios domésticos, lonas e colchões e parte-se da reserva para os grandes centros urbanos para passar semanas na beira de rodovias e embaixo de pontilhões. Quem passeia pelo centro da cidade dificilmente deixou de notar a presença cada vez maior de caigangues nas ruas e praças a oferecer bromélias, cestos ou simplesmente pedindo dinheiro. Sem tradição cristã, eles abrem mão de ceias e festas natalinas em busca de algum dinheiro e da solidariedade típica de final de ano.
Além dos indígenas abrigados no Centro Cultural Caigangue, várias famílias estão residindo há semanas em três acampamentos improvisados na beira da Via Expressa e da Avenida Wiston Churchil (Zona Norte). Em todos, há presença de muitas crianças.
O escritório regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) não sabe ao certo quantas famílias estão na cidade e admite que não tem como resolver o problema. ''A gente tenta conscientizar as famílias até alertando para os perigos que eles correm nesses locais mas não temos como levá-los para reserva à força'', afirma o administrador do órgão, José Gonçalves dos Santos.
A Funai planeja melhorar a condição dos acampamentos com a criação de um espaço para esses acampamentos de final de ano. ''Esperamos encontrar um local mais seguro para que eles passem esse tempo aqui, mesmo porque isso não vai acabar'', resigna-se. Segundo ele, na segunda-feira todos os caigangues devem começar o retorno para as reservas. ''É de praxe passar o Ano Novo na reserva'', diz.
A caigangue Marília da Silva, 21 anos, está acampada há duas semanas ao lado de um outdoor na Avenida Wiston Churchil. Ela divide uma pequena barraca de lona com o filho pequeno e conta que veio vender cestos. Contudo, o grupo, composto por mais dois casais de Jerônimo da Serra (78 km ao sul de Cornélio Procópio) trouxe apenas cinco artefatos para comercializar.
O risco de atropelamento na via é grande, ainda mais para as dez crianças que fazem parte do grupo. Marília parece não se incomodar com as más condições de hospedagem. De poucas palavras, diz que não liga em passar o Natal longe de casa. ''Não tem festa na reserva'', explica.

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