Hoje, certamente, os indíos que moram na Reserva do Apucaraninha (a cerca de 80 quilômetros de Londrina) estarão descansando após um dia todo de festa. Eles comemoraram antecipadamente ontem o 19 de Abril, Dia do Índio, com muita música e um grande churrasco feito com sete bois - todos engordados na reserva.
A ‘‘música de branco’’, assim como a comida e as roupas de branco já fazem parte do dia-a-dia dos moradores do Apucaraninha, mas eles ainda preservam muitas das tradições do povo cainguangue. A língua é uma delas. As crianças aprendem cedo a entender a língua dos pais e avós e aprimoram o idioma na escola, a partir do pré-primário, quando aprendem a escrever o que já sabem falar muito bem. Entre os moradores da reserva, as conversas são só em cainguangue, mesmo que um visitante esteja presente.
Tradições como dança e pintura do corpo são lembradas apenas em ocasiões mais íntimas. O Dia do Índio não é uma delas. ‘‘É que nesse dia a gente convida muita gente de fora para a festa, vem muito branco’’, justifica o cacique Juscelino Vergílio.
Tradição mesmo é a Festa do Emi (em caingangue, a palavra recebe til sobre as letras E e I), realizada em agosto. É quando ocorre colheita do milho verde. Nessa ocasião, a festa é só para os índios e pouquíssimos convidados. Eles escolhem um local na mata para se reunir, uns pescam; outros caçam; saem em busca de mel e de palmito. Assim, passam o dia preparando e se alimentando com comidas aprendidas com seus ancestrais; e dançando as músicas típicas do povo, com o corpo todo pintado. ‘‘É nossa festa mais bonita’’, afirma Juscelino.
Outro costume que eles ainda mantêm é a Pesca Pari. Pescar não é mais uma forma de sobrevivência dos índios, mas um hobby que eles pretendem não abandonar nunca. A Pesca Pari consiste em pegar os peixes com armadilha de taquara trançada. ‘‘A gente pega muito peixe assim e chama os amigos pra comer na beira no rio. A gente não faz igual o branco, que limpa o peixe. Pra nós é bom assar do jeito que tiramos do rio’’, relata o cacique.
A pescaria é feita nos três rios que banham a reserva: o Tibagi, o Apucaraninha e Apucarana Grande. O peixe assado é saboreado com o Emi - uma comida feita com o milho que fica de molho por quatro dias, depois é socado, deixado azedar e torrado - e com o Me-Gu (com til sobre o E), feita com milho socado e torrado. ‘‘Fica como farinha mas com gosto bem melhor’’, avisa Juscelino.
Tradição à parte, a vida e as dificuldades dos indígenas que vivem na reserva do Apucaraninha não são diferentes das enfrentadas pelos moradores das periferias das cidades. Nos 5.574 hectares do Apucaraninha vivem 1.050 índios, sendo cerca de 300 crianças. Parte deles mora em casas de material, mas uma grande parcela vive em casa de pau-a-pique coberta de sapé e com chão de terra batida.
‘‘A gente está um pouco esquecido. O branco fala em crise e fica assustado. Assusta nós também. Antes, a gente vivia de pesca, de caça, de fruta. Agora acabou tudo’’, diz o cacique. Dinheiro é difícil de aparecer na reserva. Eles vivem das lavouras de milho, arroz, feijão e batata doce, voltadas mais para a sobrevivência.
O que sobra das colheitas é vendido nos armazéns em Tamarana, mas o dinheiro é pouco. ‘‘Dá só para umas compras no supermercado e para comprar umas roupas’’, relata Juscelino. Todas as famílias tem sua roça. Muitas delas reforçam a renda com a venda de balaios.
Mas não são todos que gostam de fazer balaios. Tem caso que a família vive só da lavoura,’’ acrescenta o cacique. Para vender o artesanato, o índio viaja até Londrina, onde tem permissão de ficar por até 15 dias. Depois é obrigado a voltar para a reserva. Aliás, algumas regras da área são rígidas. Para morar na área o casal tem que ser índio. ‘‘Aqueles que quiserem casar com branco podem, mas não vêm morar aqui. Isso não pode.’’
Juscelino Vergílio admite que a vida no Apucaraninha ainda é melhor do que em muitas reservas. ‘‘Aqui a gente tem médico e dentista duas vezes por semana e remédio não falta no posto de saúde.’’ Mas existem outros problemas. O lixo é um deles. Os indígenas adquiriram os mesmos hábitos alimentares dos brancos e é comum encontrar pelas ruas da reserva garrafas plásticas de refrigerantes, latas e papelões. ‘‘A gente queria que a Prefeitura mandasse um caminhão para pegar o lixo toda semana. Acho que está na hora de a gente começar a pedir coisa pra prefeitura também, não só pro governo (Federal).’’
Na reserva também tem duas igrejas, uma católica e outra evangélica (a maioria dos indígenas é de católicos), e uma escola do pré à 4ª série. Lá estudam 137 crianças de 5 a 14 anos. Quando concluem o ensino básico, poucos optam por continuar estudando.
Hoje, apenas quatro deles frequentam o ensino fundamental na escola de Lerroville e nenhum deles está matriculado no ensino médio. ‘‘Eles preferem trabalhar na lavoura, não querem estudar. Mas se quisessem podiam ir’’, comenta o professor da reserva Pedro Kagrekag. Mas ele emenda: ‘‘Os pais também não incentivam as crianças a estudar’’.

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