Juliana Silva de Oliveira quer ser professora. Ela tem 14 anos, mas já escolheu a profissão que quer exercer quando se tornar adulta. A afirmação é segura, definida, bem diferente da indecisão que marca adolescentes às vésperas do vestibular. A menina, que ainda cursa a 8 série, atribui toda a tranquilidade com que fala do próprio futuro à escola onde estuda há cinco anos: o Centro de Atendimento Integrado à Criança (Caic) José Jofilly, do Jardim Santiago (Zona Oeste), que em 2004 completa 10 anos de funcionamento. É a primeira unidade do tipo instalada em Londrina a segunda funciona na Zona Sul. O aniversário, que aconteceu em maio, foi comemorado no último sábado, com a montagem de painéis com fotos, contando a história da unidade.
Criados ainda na gestão do presidente Fernando Collor de Melo e vinculados ao Pronaica, um programa federal dirigido ao atendimento integral de crianças e adolescentes extinto há cerca de seis anos, os Caics vinham atender a uma demanda crescente nas comunidades mais carentes. O objetivo, segundo a secretária municipal de Educação, Carmem Sposti, era aproximar a escola da sociedade, oferecendo formação educacional em tempo integral para as crianças do ensino infantil até o fim do fundamental, afastando-as da violência da periferia. As unidades funcionariam com base em uma parceria entre Estado e Município, atendendo assim a todas as faixas etárias.
Entre os diferenciais oferecidos pelos centros, estão as oficinas extra-curriculares. No Caic do Jardim Santiago, que com um corpo docente de 110 professores atende a 1,2 mil estudantes, alunos de 1 a 4 séries podem escolher entre ginástica, dança, artesanato, teatro e futebol. Em uma destas oficinas, Juliana escolheu a profissão. ''Estudei artes na 4 série e gostei demais. Foi quando me decidi'', lembra.
''Mantemos os alunos a maior parte do dia dentro da escola, em segurança e participando de atividades que vão ajudar na formação pessoal e profissional'', explica Elvira Rosana Macedo Santos, diretora da Escola Municipal Mari Carrera Bueno, que funciona dentro do Caic. O Caic abriga ainda a escola estadual Cássio Leite Machado, dirigida pelo professor Renato Soares de Souza.
Mesmo enfrentando dificuldades financeiras e estruturais, a eficiência do projeto se comprova com a procura de comunidade. De acordo com a professora de artes Maria Heloisa Cerqueira Silva, mães de alunos chegam na escola aos prantos, em busca de uma vaga para os filhos em uma das oficinas. ''Também sabemos de casos em que os alunos chegaram a invadir a sala de artes durante o final de semana. Eles não depredaram nada: entraram, brincaram com o material e foram embora'', conta, num misto de felicidade e preocupação.
Outra das oficinas mais procuradas pelos alunos era a de informática, montada com computadores doados pelo Instituto Ayrton Senna. A própria Juliana era uma das alunas da oficina, e lembra das atividades, realizadas com prazer em companhia dos amigos. ''Estávamos produzindo material sobre o aniversário de 70 anos de Londrina. Fiz até fotos para colocar na Internet'', conta.
As atividades do laboratório foram interrompidas em julho, quando os sete computadores foram roubados. Desde então, somente uma pequena parte das atividades é mantida, custeada pelas próprias professoras. ''Juntamos dinheiro e pagamos para que os alunos continuem com os projetos em cyber cafés'', afirma Elvira. ''E seria muito importante que tudo isso continuasse. Os alunos gostavam muito. Tínhamos que distribuir senhas para o acesso aos computadores e eles chegavam a falsificar o papel para poderem vir mais vezes'', completa Heloisa.
Velho e com arquitetura ultrapassada, o prédio do Caic também exige ampliações. A estrutura atual sofre com infiltrações que interrompem as aulas frequentemente e já não atende às necessidades da comunidade. ''Torcemos por uma maior atenção dos governos para nós. É um projeto lindo na teoria e que não pode ser abandonado'', diz Heloisa.

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