Tome cuidado se conversar com o cantor Caetano Veloso. Ainda mais se for soletrar palavras. Na sua vinda a Curitiba, o cantor corrigiu uma fã que falou a vogal de forma fechada, quando soletrou o seu nome. Na sua erudição (já que Caetano diz que é preciso conhecer a língua brasileira), afirma que só existe o som ‘‘é’’. Com isso, o músico e compositor, que se celebrizou por canções com rebuscados jogos de palavras, questiona a forma oral com que os paranaenses falam. Imagine se Caetano ouvisse uma criança soletrando o abecedário em uma escola da cidade. Entenderia que ela estaria cometendo um erro craso ao falar ‘‘ê’’.
‘‘Isso é uma bobagem’’, comenta o professor e escritor Cristóvão Tezza. Para o escritor, não existe uma oralidade padrão no Brasil, em função da grande diversidade cultural. ‘‘Prefiro não polemizar com Caetano Veloso, mas não existe esta norma para a letra ‘ê’’, comenta.
Da mesma forma entende a linguista da Universidade Federal do Paraná, Lígia Negri. ‘‘O cantor levou em conta o sotaque da Bahia, onde as pessoas falam a vogal de forma aberta’’, diz. A professora exemplifica que nenhum baiano diria que está com ‘‘séd钒, mas com ‘‘sêd꒒. ‘‘O som fechado existe também naquela região’’.
Estudiosa em fonética, Lígia explica que, ao contrário da padronização da escrita, não existe uma única oralidade no País. ‘‘Na década de 70 foi feita uma pesquisa da norma culta falada no Brasil e se constatou cinco grandes grupos orais - o gaúcho, paulista, carioca, baiano e de Recife’’, disse. Cada um desses grupos teria uma peculiaridade na entonação das letras. ‘‘As falas dessas regiões, como nos demais pontos do País, são influenciadas pela culturas regionais’’, afirma. Por causa da colonização européia de Curitiba, principalmente alemã e italiana, o curitibano reforça ‘‘ê’’ e ‘‘ô’’ nos finais das palavras.
Lígia considera que o regionalismo no País tem se mantido, mesmo com a pressão dos meios de comunicação. ‘‘O padrão adotado pela televisão é o carioca. E foi escolhido por causa da força da Rede Globo, que tem sede no Rio de Janeiro’’, diz. Ela diz que quando os índices de audiência da televisão ainda eram baixos, o padrão oral do meios de comunicação era o das rádios paulistas. ‘‘Com erres acentuados, os atores das novelas radiofônicas tinham o mesmo modo de falar do ator Paulo Autran’’.
Naquelas épocas, os ouvintes tentavam imitar essa fala. ‘‘Da mesma forma que atualmente, quando a Globo faz uma novela baiana ou sertaneja e o Brasil acaba falando um pouco baiano ou caipira’’, afirma.
A linguista entende que a oralidade nos Estados vem sofrendo constantes mudanças. ‘‘Quando grupos econômicos se destacam, toda a sua cultura passa a ganhar força. Veja o caso do segmento sertanejo, onde existem pessoas que se sentem hoje orgulhosas de falar de forma forte a palavra porta’’, diz. ‘‘Por isso, não se pode dizer que o Brasil tem uma oralidade padrão’’.

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