Cadela morre e dono acusa o HV de omissão de socorro
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de novembro de 1996
Lúcio Horta 
O desempregado Juarez José Ferreira, de Ibiporã, esteve ontem na Folha reclamando que o Hospital Veterinário (HV), da Universidade Estadual de Londrina (UEL), negou atendimento ao seu animal de estimação, uma cadela da raça Pinscher com aproximadamente dois anos de idade. O incidente ocorreu na terça-feira à noite, por volta das 20h30.
Segundo ele, a cachorra estava grávida, os filhotes morreram dentro da barriga e apenas um nasceu, também morto. Sem condições de pagar veterinário, um vizinho sugeriu que Ferreira levasse o animal até o HV, no campus da UEL, onde a cadela poderia receber atendimento gratuito.
Quando chegou ao HV, Juarez Ferreira conta que lhe pediram para preencher uma ficha cadastral, onde estavam previstas despesas com o atendimento. Aí eu logo disse que não teria condições de cobrir gasto nenhum. Mas a professora informou que sem o pagamento seria impossível o atendimento.
Segundo Juarez Ferreira, ele insistiu no atendimento, preocupado com o estado de saúde da cadela. A solução apresentada foi que ele esperasse até o dia seguinte, voltasse ao hospital pela manhã e fizesse o pedido diretamente ao diretor do HV, Paulo Eduardo Miranda Costa.
Perguntei se, dando um jeitinho de pagar as despesas, a cachorrinha seria atendida. Ela disse que nesse caso o atendimento seria imediato. Juarez Ferreira acrescentou que em nenhum momento foi avisado de qual seria o valor da despesa. Mas não ia ficar barato, porque a cachorrinha teria que fazer uma cesariana.
Às quatro horas da manhã do dia seguinte, Juarez Ferreira acordou e percebeu que o estado de saúde da cadela havia piorado. Uma hora depois ela morreu. Meu menino ficou desesperado, está até meio doente. Ele nem queria que o animal fosse enterrado e ficou ali do lado o tempo todo, afirma Ferreira. Então eu imaginei: será que não tinha um meio de deixar o cachorro lá e no outro dia eu tentasse negociar com o doutor Paulo?
Juarez Ferreira faz questão de dizer que foi muito bem atendido pela professora da UEL e por mais duas alunas. Ela até queria ajudar, mas eram ordens superiores, lamenta. Mas eu achei um absurdo e não me conformo. Isso não pode ficar assim.
O diretor do Hospital Universitário, Paulo Eduardo Miranda Costa, afirma que - ao contrário do que foi falado - o animal poderia ter sido atendido mesmo sem pagamento no ato de consulta ou outros procedimentos terapêuticos.
Segundo ele, todos que chegam ao HV passam por duas triagens: uma social, para saber quais as condições financeiras da pessoa que está solicitando os serviços; e outra clínica, para conhecer o estado de saúde do animal e encaminhá-lo para o atendimento adequado.
Quando a pessoa é muito carente, afirma o diretor do HV, paga apenas o medicamento e os materiais utilizados em caso de ferimentos ou cirurgias - como por exemplo agulhas, seringas e luvas cirúrgicas. E quem não pode pagar na hora ou não tem cheque, a solução apresentada é a pessoa assinar uma promissória no valor das despesas. Acontece que muita gente não admite despesas com animal.
Sem esses valores, segundo Paulo Costa, o Hospital não teria condições de continuar funcionando porque o governo do Estado não repassa verbas de manutenção. E esse é um hospital-escola, seria uma injustiça com nossos ex-alunos e as pessoas que investiram em clínicas veterinárias se a gente não cobrasse nada. Seria concorrência desleal.
O diretor do HV destaca também o aspecto legal da questão: é necessário a autorização por escrito do responsável para que o atendimento seja realizado. Sem essa autorização, segundo ele, ninguém põe a mão no animal. Aí o cachorro morre mesmo. E eu tenho muita tranquilidade para dizer isso porque é graças a essa firmeza que o hospital continua funcionando.


