Cadeião: o 'inferno' abandonado no Centro
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quinta-feira, 04 de setembro de 2008
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
1949. A cidade que a Companhia de Terras Norte do Paraná projetara para não ter mais que 30 mil habitantes crescia em ritmo mais acelerado do que os ingleses colonizadores esperavam. Junto com o progresso, os primeiros sinais de delinquência surgiam na afamada terra vermelha, que atraía gente de todos os cantos do país e do mundo. Gente que chegava à cidade sonhando com o dito ouro verde que brotava em cafezais. Nesse ano, foi construído o ''cadeião'' de Londrina.
2008. Às vésperas de completar 60 anos, o prédio que manteve trancafiado inúmeros homens acusados dos mais diversos delitos até ser desativado em 1994 está sem destino, em pleno Centro da cidade, no cruzamento da Rua Brasil com a Avenida Jacob Bartolomeu Minatti (Leste-Oeste).
Dentro de suas paredes, o cadeião, que por fora não esconde os sinais de abandono, guarda traços de uma história triste. Relatos de vidas em cárcere. Desenhos de Jesus Cristo estão próximos da suástica, símbolo utilizado pelos nazistas.
Recortes de revistas que estampavam mulheres, nuas ou não, forram as paredes. No teto, diversos sinais de remendos aos buracos que os detentos faziam para as fugas. ''Nós não morremos, nós reagruparemos no inferno para roubar o diabo'', diz uma das muitas frases escritas nas paredes. ''Jesus vive, ele está voltando. Arrependei-vos'', diz outra.
O arquivo da FOLHA também conta história mirabolantes do cadeião, que recebeu, em reportagens do tempo em que estava em funcionamento, adjetivos como ''panorama do inferno'' e ''pior cadeia do Paraná''. Fugas foram diversas.
Quando o cadeião foi desativado e os presos foram transferidos para a Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), em março de 1994, diversos destinos chegaram a ser cogitados para o prédio. Um projeto da prefeitura previa a transformação em shopping, ao custo de US$ 100 mil. A Secretaria Estadual de Justiça queria a demolição, marcado para o dia 28 de março de 1994. Mas a ação foi impedida por um grupo, constituído principalmente por estudantes e professores de Arquitetura da Universidade Estadual de Londrina, que protestou. Uma polêmica se instalou na cidade. A prefeitura, na época, divulgou que teria projetos para o local.
Em 5 de abril de 1995 a FOLHA publicou uma pesquisa, que ouviu 600 pessoas, sobre qual seria o melhor destino para a Cadeia Pública de Londrina. Setenta e três por cento dos entrevistados responderam que preferiam a demolição. O tempo passou, a polêmica esfriou e o cadeião ficou em pé, porém nenhum projeto de transformação foi colocado em prática.
Atualmente, algumas celas servem como depósitos para objetos apreendidos pela polícia. Os presos foram substituídos por diversos caça-níqueis, motocicletas e bicicletas. Objetos que parecem tão sem destino quanto o prédio que os abriga.


