Cadeia é uma das heranças dos brancos
Várias heranças do ''homem branco'' podem ser vistas na aldeia de Mococa. Os visitantes se surpreendem, por exemplo, quando descobrem que um casebre de madeira separado em dois compartimentos é a cadeia local. Segundo Janaína, 26, filha de pai brasileiro e mãe mestiça, a prisão abriga autores de ''delitos'' como brigas, adultérios e... fofocas.
''Se fala mal do outro, eles prendem mesmo. Muitos escapam e daí, quando são apanhados, ficam amarrados'', conta. As penas são curtas, geralmente variando de algumas horas a três dias. A antropóloga Kimiye Tommasino explica que a cadeia é herança da época do regime militar, quando foram implantadas as Guardas Rurais Indígenas (GRIN) em todo o País. Alguns índios eram levados para treinamento militar e voltavam com poder de polícia. ''Aquilo virou uma calamidade, com muitos abusos, e por isso foi extinto antes mesmo do fim da ditadura'', diz. A prisão, entretanto, permaneceu.
O catolicismo é outra marca estranha às tradições indígenas, embora sua presença seja bastante antiga. A capela construída em Mococa recebe todas as famílias e abriga festas em homenagem a santos. ''Hoje você tem uma espécie de sincretismo que incorpora a crença anterior ao contato (com o branco), a religião tradicional dos Kaingang, ao catolicismo'', esclarece a antropóloga.
O índio mais velho de Mococa, Augusto Merenciano Gogoia, 99, diz que ''deixou de levar uma vida errada'' depois de se converter à Congregação Cristã. ''Não bebo mais, não vou ao baile, não fico achando outras mulheres bonitas. Entrei na visão do Senhor Jesus'', afirma.
A atração que o modo de vida branco exerce também é perceptível nas declarações de alguns Kaingang. O agente de saúde Albino Fér Káng Bento, 41, diz que depois de estudar nunca mais se acostumou aos trabalhos em roças indígenas. ''Fiz um curso em Londrina e comecei a trabalhar em máquina de algodão, depois numa fábrica de farinha e por último com boiada. Aos 18 anos, estava tudo pronto para eu ir embora para o Mato Grosso, quando meu pai me levou de volta para a aldeia'', conta. ''Eu gostava mais de ficar com os brancos. Mas me acostumei de novo com os índios'', acrescenta Albino, que já tem duas netas Kaingang. (V.N.)





