Sid Sauer
Enviado a Fênix
Imaginem uma cadeia pública onde os presos passam o dia soltos pela delegacia, criam galinhas poedeiras e de corte, mantêm uma horta com estufa, têm celas limpas com chão de cerâmica branca, podem assistir televisão com antena parabólica e receber familiares em dias de visita num refeitório com churrasqueira. Essa cadeia existe e fica em Fênix, um pacato município com 5 mil habitantes a 63 quilômetros ao norte de Campo Mourão.
A transformação da cadeia de Fênix começou há quatro anos quando tomou posse o delegado Dauri Sontag, 45, um ex-comerciante da cidade. O pai dele foi delegado de Fênix em 1954. O próprio Sontag chegou a cuidar da delegacia nos anos 70, quando tinha apenas 19 anos. Hoje, um filho dele é policial militar destacado na cidade. Um outro filho, de 15 anos, também sonha com a carreira policial.
As mudanças na cadeia, no entanto, também se devem à ajuda da comunidade. Sontag calcula que gastou pelo menos R$ 45 mil nas reformas da delegacia. Desse total, apenas R$ 8,9 mil foram repassados pelo governo do Estado. Todo o resto foi conseguido através de doações. O delegado chegou a receber 18 novilhas para ajudar nas obras. ‘‘Os animais foram rifados’’, conta.
A antena parabólica e as quatro beliches – uma em cada cela – também foram doadas. No corredor, entre as celas, uma televisão de 20 polegadas foi doada por um dos quatro presos que estão atualmente no local. A capacidade é para oito detentos, mas raramente a cadeia lota. A cozinha é um dos orgulhos do delegado. ‘‘Todo mundo que vê não acredita’’, conta. Entre ela e um salão equipado com mesas e cadeiras, existem duas geladeiras, um freezer e outra televisão.
O salão usado como refeitório pelos presos é tão aconchegante que serve para reuniões de confraternização dos vereadores e do prefeito da cidade. Fiéis da Igreja Católica também realizam novenas no local. O gabinete de Sontag é de dar inveja à sala do delegado-chefe da 16ª Subdivisão Policial, em Campo Mourão. ‘‘Tudo foi comprado com ajuda da comunidade e com dinheiro que sobrou dos repasses para a gasolina’’, explica.
A horta com estufa foi construída pelos próprios presos com a ajuda da Emater, que ainda hoje dá assistência técnica para garantir a produção. A granja foi montada há cerca de três meses. Hoje ela tem cerca de 150 galinhas poedeiras e para o abate. O delegado estima uma produção mensal de 2,4 mil ovos. A carne e os ovos são usados na refeição dos presos. O excedente será doado para a creche, para o asilo e para a Apae de Fênix.
Segundo Sontag, todos os presos que passaram pela delegacia aprovaram o sistema. Prova disso é que não houve fugas nesse período. ‘‘Os próprios presos que estão aqui ficam de olho nos presos novos para evitar fugas ou outros comportamentos violentos’’, explica. ‘‘Quem está aqui não quer que a imagem da cadeia de Fênix seja denegrida’’, completa. Uma situação bem diferente de 1994. ‘‘Isso aqui fedia’’, lembra Sontag.Presos criam galinhas, mantêm hortas, usam celas e banheiros limpos e podem até assistir televisão com parabólica
Sid SauerCedidas por Dauri SontagA delegacia antes e depois da reforma; Dauri segura uma galinha criada na delegacia; na cozinha dos presos são preparadas refeições de qualidade

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