A velhinha foi uma das primeiras pessoas a chegar no velório. Passava pouco das oito da manhã. Na capela do cemitério um casal solitário velava o corpo do avô, um senhor idoso de mais de 80 anos que a pneumonia levou dessa para melhor.
A velhinha deixou o guarda-chuvas do lado de fora, ajeitou o vestido preto, endireitou os óculos que escorregavam para a ponta do nariz e entrou. Com passinhos miúdos foi até o caixão. Ficou um bom tempo parada ali, falando baixinho com o morto. Tirou um lenço da bolsinha preta, enxugou as lágrimas, assoou o nariz.
O casal estava intrigado:
Você conhece ela, bem? - perguntou o homem.
Eu não, disse a mulher, mas o vô tinha tantos amigos, viveu aqui a vida inteira... São tantos anos que eu moro fora que nem reconheço mais as pessoas.
Espero que não seja parente, é tão chato a gente não lembrar o nome quando é parente, sussurrou o marido.
A velhinha, recomposta, se aproximava. Sentou-se ao lado do casal e começou a conversar.
Coitadinhos, aqui sozinhos. Passaram a noite inteira aqui? - perguntou. Passamos, respondeu a mulher. A senhora é...
Catarina, meu bem. Catarina Oliveira, muito prazer. Pena que a gente esteja se conhecendo numa ocasião tão triste, não é mesmo? Mas como foi acontecer isso com o Ambrósio? Ele era tão forte...
Foi uma pneumonia. Bom, a senhora sabe, ele estava doente há tempos, tinha mais de 80 anos, né? - explicou a mulher.
Em seguida, se arrependeu de ter dito isso. Será que a velhinha também não tinha mais de 80 anos?
É mesmo, tanto tempo doente, pobrezinho. Mas a vida é assim mesmo, ninguém fica para semente. Vai fazer falta, o Ambrósio, um homem tão bom!
O tempo foi passando e a conversa continuou. A velhinha era simpática, distraiu o casal com histórias antigas da vida dela, falou do início da colonização da cidade (a família dela era pioneira). Depois conversaram sobre a vida, a morte, as doenças... Solícita, a velhinha foi duas vezes buscar um pouco de água para a mulher, que chorava ao lembrar da morte recente da mãe. Desgraça pouca é bobagem! Para distraí-la, a velhinha tirou da bolsa umas fotos do netinho e logo mudou o rumo da prosa. O marido, agradecido, arriscou:
Será que a senhora ficaria um pouco aqui com a minha esposa? Preciso providenciar uns documentos ainda na funerária...
É claro que eu fico, pode ir sossegado.
E ficou mesmo. Mais tarde, o resto da família e alguns amigos começaram a chegar. O marido voltou. Cercada pelos parentes, a mulher perdeu a velhinha de vista. Só depois do enterro lembrou dela. Comentou com o dono da funerária.
O senhor conhece uma velhinha chamada Catarina? Eu pensei que ela fosse ficar para o enterro mas ela sumiu. Foi tão boazinha comigo, me fez companhia agora de manhã. Queria agradecer.
O dono da funerária balançou a cabeça e caiu na risada:
Dona Catarina? A senhora não precisa se preocupar em agradecer nada, não. Ela é a pessoa mais conhecida aqui no cemitério. Não perde um velório, nem com chuva ela deixa de vir. Às vezes ela nem conhecia o morto. O negócio dela é o lanche. A coitada é muito pobre, mora aqui pertinho do cemitério e aproveita para tomar um café, comer um pão com margarina, mortadela... A senhora não fique chateada. Ela não faz por mal. Sabe como é, cada um se vira como pode, né?

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