Caciques checam violência contra índios em Londrina
Lideranças indígenas da reserva de Ortigueira (113 quilômetros ao sul de Apucarana) chegam hoje a Londrina para averiguar denúncias de violência contra cainguangues que residem no Jardim Pindorama (região leste da cidade). Cerca de 20 índios desaldeados, entre adultos e crianças, vivem no bairro em condições precárias e disseram à Folha que são espancados e ameaçados por alguns moradores. Por medo, eles se recusaram a identificar os autores das ameaças, mas afirmaram que algumas mulheres já apanharam.
A índia Neide Pereira, de 27 anos, de Ortigueira, está morando em um barraco há mais de um mês em Londrina. Ela disse que tem sobrevivido vendendo balaios e pedindo esmolas com os filhos. O mais velho tem 11 anos e frequentava a escola da reserva, mas não está estudando mais. Os índios, segundo Neide, estão saindo da reserva de Ortigueira porque passam necessidades. Aqui pelo menos nós recebemos esmolas, declarou Neide. Apesar da miséria e das ameaças, os índios preferem ficar no bairro do que voltar para a reserva. Lá é pior, afirmou.
Neide contou que algumas famílias de índios recebem cesta básica do Provopar, com 40 quilos de mantimentos, que não seriam suficientes para as necessidades das famílias. Eu mesma não recebo a cesta, mas as pessoas me ajudam. Uma moradora do bairro, que não quis se identificar, informou que as pessoas têm pena dos índios e contribuem dando comida e roupa usada. No local onde os índios moram não tem energia elétrica e nem água encanada. Para tomar banho e lavar roupa os índios usam água de uma mina nas imediações. As índias pedem água nas casas dos vizinhos para fazer comida e beber.
O cainguangue Valdir Domingos, 22 anos, é da reserva do Apucaraninha, em Tamarana, e mora no Pindorama com a mulher e as filhas há mais de um ano. Ele contou que trabalha em uma firma como segurança e informou que ganha cerca de R$ 400,00 por mês. A esposa de Domingos, Rosélia Vicente, 21 anos, disse que as crianças ainda falam a língua cainguangue, mas o português é cada vez mais usado. Rosélia relatou que fez cadastro na Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-LD) para conseguir uma casa popular. Ela disse que na reserva a vida é mais difícial porque as plantações não são suficientes para manter as famílias. Nem sempre a gente colhe o que planta, comentou a índia.
No assentamento Santa Fé, região leste da cidade, a índia Jucimara Fidêncio, 15 anos, mora há quatro meses com o marido Márcio Aparecido Caetano, 20 anos, que é mestiço guarani. O casal tem uma filha de oito meses. Segundo Jucimara, a vida no barraco de cerca de três metros quadrados, coberto por lona, sem energia elétrica e banheiro, ainda é melhor do que a realidade da reserva. Lá não tem trabalho para a gente sobreviver, argumentou. A irmã de Jucimara, também casada, mora no mesmo assentamento.





