C. Mourão é a cidade dos quebra-molas
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domingo, 04 de janeiro de 1998
Sid Sauer Campo Mourão 
Sid Sauer
Pé acionadoNão dá tempo nem de tirar o pé da embreagem, reclama a motorista Geni Fonseca (foto superior); abaixo, um Fusca transpõe a lombada
Eles estão por todos os lugares, da avenida principal, no centro de Campo Mourão, aos mais longínquos bairros da periferia. São os quebra-molas. Nem a prefeitura sabe ao certo quantos estão instalados. Já catalogamos mais de 250, conta a secretária do Planejamento, Ricardina Dias. São mais de 400, emenda o secretário de Obras e Serviços Públicos, Ademir Moro Ribas. Certo mesmo é que nas 10 avenidas centrais, que juntas têm 29 quilômetros de extensão, são 128 quebra-molas. A média é de uma lombada a cada 227 metros, ou seja, uma a cada duas quadras.
Das 10 avenidas centrais três são consideradas estruturantes e, em tese, não deveriam ter nenhum quebra-molas. O número seria maior se a prefeitura não tivesse retirado há um mês oito lombadas da Avenida Goioerê, que passou a receber uma linha de ônibus urbano. O diretor da empresa que faz o transporte coletivo urbano em Campo Mourão, Flávio Gurginski, é um dos maiores críticos das lombadas. Em setembro, ele enviou um ofício ao Executivo relatando o drama da empresa.
Gurginski fez as contas e descobriu que os ônibus dele passam 12 mil vezes por dia sobre quebra-molas. Ele quer a retirada das lombadas existentes nas linhas de ônibus, ou pelo menos a sinalização adequada e o rebaixamento dos obstáculos. Nas 10 avenidas onde a Folha fez um levantamento, há placas indicando quebra-molas em apenas 71 das 128 lombadas. Isso sem contar que boa parte dessas placas estão depredadas ou escondidas atrás de árvores. A pintura das lombadas também está envelhecida e apagada.
Há excesso de quebra-molas na cidade, reclama Gurginski. Segundo o empresário, eles causam atrasos nas linhas, reclamações dos usuários e aumento no custo de transporte. As frenagens constantes avariam todo o sistema de rodagem, carroceria, mecânica geral e aumentam o consumo de combustível, diz. A motorista Geni Fonseca de Oliveira, que há oito anos dirige para a empresa, faz coro com o patrão. Em alguns trechos não dá tempo nem de tirar o pé da embreagem, protesta.
Sid SauerTaxista Carlos Roberto Pires Pereira: falta de criatividade
Geni cita o exemplo da esquina das ruas Dom Jaime Luiz Coelho e Duque de Caxias, no Lar Paraná, onde existem três lombadas. Os ônibus têm que passar em duas delas. Estou fazendo a curva e já tenho que passar por um quebra-mola, reclama. Na esquina da Avenida Guilherme de Paula Xavier com a Rua Peabiru, o caso é semelhante: três lombadas num espaço de cerca de 50 metros. Na Rua Rocha Pombo, há dois quebra-molas numa única quadra. Pior do que isso só na Travessa Pedro Schemberg, uma rua morta de apenas 100 metros de extensão, que conta com duas lombadas.
Existem ainda os casos clássicos de quebra-molas colocados em subidas acentuadas, como as primeiras quadras da Avenida João Bento, próximo ao trevo para Cascavel e Guarapuava. Na mesma região, a Avenida Capitão Índio Bandeira começa com uma lombada que está instalada logo nos cinco primeiros metros da via. Não há nem de onde o motorista chegar correndo ao obstáculo. Segundo a prefeitura, o objetivo é evitar que caminhões cruzem a cidade pelas avenidas centrais. Quebra-molas em pontos mais centrais da avenida são justificados para viabilizar a entrada e saída de ônibus do terminal urbano.
Isso é brincadeira de mau gosto, reclama o presidente do Sindicato dos Taxistas de Campo Mourão, Carlos Roberto Pires Pereira. Taxista na cidade há 26 anos, ele diz que o excesso de lombadas é fruto da falta de criatividade dos governantes. Ele também reclama que as lombadas são muito grandes. Não são quebra-molas, são quebra-carros, ressalta. No Corpo de Bombeiros, o sargento Javert Antônio Pereira reforça o coro dos reclamantes. Os quebra-molas nos dificultam nos casos de emergência, diz.
Segundo Javert, não há como chegar a um ponto da cidade sem ter que passar por uma série de lombadas. Perdemos muito tempo com isso. Só em frente ao destacamento existem duas lombadas. Em novembro, o número de lombadas chegou a chamar a atenção do inspetor do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). Ele disse que a cidade poderia ter melhorado ainda mais sua classificação se não fossem tantas lombadas, conta o sargento. No Pelotão de Trânsito do 11º Batalhão da Polícia Militar, no entanto, o tenente João Carlos Souza do Rosário defende os quebra-molas.
Segundo ele, as lombadas não chegam a atrapalhar o trânsito. Com os quebra-molas, querendo ou não os motoristas têm que diminuir a velocidade, destaca. O tenente também não considera exagerado o número de lombadas espalhadas pela cidade. Ele admite apenas que alguns poderiam estar melhor localizados. Há quebra-molas onde não é necessário e falta onde é preciso, diz. Para Rosário, o maior problema é a falta de sinalização. Fora isso, a lombada ajuda na redução de velocidade.
A secretária do Planejamento, Ricardina Dias, acha difícil julgar os quebra-molas. Precisaríamos analisar caso a caso, explica. Ela admite que existem lombadas mal localizadas, mas garante que nos últimos cinco anos nenhum quebra-mola foi construído fora das determinações do Contran. É uma questão de educação, diz. Se os motoristas fossem mais educados no trânsito, bastaria uma placa alertando para diminuir a velocidade. Segundo ela, novas lombadas só estão sendo feitas em áreas de risco, como em frente de escolas e postos de saúde. Difícil, porém, é segurar os pedidos da população.
Apenas em 97, foram protocolados na Secretaria do Planejamento 132 pedidos de quebra-molas. Desse total, 54 vieram da Câmara de Vereadores e 78 da comunidade. A prefeitura executou 43 durante o ano. A maioria dos pedidos populares chegam através de abaixo-assinados. Fazer as lombadas também passa por uma questão de economia. O secretário de Obras, Ademir Moro Ribas, diz que um quebra-mola custa, em média, R$ 700,00. Na Perimetral Tancredo Neves, que é mais larga, eles custam mais de R$ 1 mil. Na periferia, que tem ruas mais estreitas, cada lombada sai por cerca de R$ 400,00.


