‘‘O sonho de fazer o pé-de-meia no Japão acabou. A crise é tão forte que muitos dekasseguis estão vivendo em regime de semi-escravidão’’. O desabafo é de Ilsa Kurokawa Chuha, de 34 anos, que junto com suas três filhas menores retornaram anteontem a Londrina. Ilsa e as filhas foram resgatadas pela Associação dos Imigrantes no Brasil (Asibrás) e pela Nippomed (empresa prestadora de serviços de saúde).
O cunhado de Ilsa, Wladimir e a mulher, Ivonete Kurokawa Garcia, voltaram ao Brasil antes porque não entregaram à empreiteira japonesa o passaporte nem as passagens de volta. E contaram com a intervenção do consulado brasileiro em Guma-Kem, estado localizado na região central do Japão.
Segundo Ilsa, a agência que as levou ao Japão prometeu que ela e a filha Élis Regina, de 17 anos, teriam emprego garantido, na Cannon (indústria e equipamentos fotográficos), com salários quase dez vezes maior do que recebia no Brasil, além de alojamento e escola para outras filhas, Érika, de 12, e Elisa, de 11 anos.
‘‘Saímos do Brasil entusiasmadas em fazer uma poupança e comprar uma casa’’, conta Ilsa. O sonho começou a virar pesadelo no aeroporto de Tóquio. ‘‘Assim que desembarcamos, o agente da empresa japonesa associada a agências de recrutamento de mão-de-obra no Brasil, nos informou que não tínhamos emprego garantido, nem alojamento, nem escola. Também contou que no Japão há preconceito contra obesos, acham que são lentos e improdutivos’’, lembra Ilsa. Ela pesa 110 quilos e Élis Regina, 99.
Ilsa e as filhas ficaram instalados em um escritório durante 15 dias. Na sequência, Ilsa conseguiu um trabalho. ‘‘Esse emprego foi um alívio, mas durou apenas algumas semanas’’. Logo depois chegaram a irmã, Ivonete, e o cunhado Wladimir. Eles foram levados para Otashi, em uma casa onde havia oito brasileiros. ‘‘Eles estavam na casa há 15 dias. Avisaram que seríamos levados ao escritório da empreiteira, onde iriam tomar nossos passaportes e as passagens de volta. E revelaram ainda que, apesar de não cumprirem a promessa de arrumar emprego, ainda cobravam pela alimentação e estadia na casa’’, conta Wladimir.
Segundo Wladimir, esse é o processo de semi-escravidão a que os dekasseguis são submetidos. ‘‘Deixei o Brasil devendo R$ 7 mil. Cheguei ao Japão e não encontrei emprego. Eles cobram por tudo, desde o transporte do aeroporto ao alojamento. Nos obrigam a trabalhar meses só para pagá-los’’, denuncia Wladimir.
Ele contou ainda que telefonou para Londrina, para reclamar pelo não-cumprimento das promessas, e foi informado que deveria falar com a matriz em Maringá. Lá foi informado que sua dívida tinha sido transferida para o Japão e que, por conta das conversões para dólar e iene, já estava em R$ 10 mil.
Wladimir denunciou a situação ao consulado brasileiro e conseguiu a liberação das passagens. ‘‘Embarcamos de volta para casa. Vamos recomeçar a vida. A situação no Brasil também está difícil, mas aqui estamos em nosso País, ao lado da família e dos amigos.’’

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