Burocracia prejudica doentes com câncer
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sexta-feira, 04 de dezembro de 1998
Osmani Costa 
Pacientes que sofrem de algum tipo de câncer e que necessitam do tratamento à base de quimioterapia e radioterapia estão sendo prejudicados pela demora na liberação de guias do Sistema Único de Saúde (SUS) que autorizam os procedimentos. A denúncia foi feita à Folha nos últimos dias por doentes, que no entanto não querem se identificar por medo de represálias e interrupção no tratamento.
A dona de casa Maria da Silva - nome fictício - conta que, no início desta semana, já estava internada no Instituto de Câncer de Londrina (ICL) para receber a aplicação da quimioterapia, mas acabou recebendo alta sem o tratamento por falta da guia do SUS. Eu estava recebendo soro para a dilatação da veia, quando deram a notícia de que não poderia receber a quimioterapia porque o SUS não havia liberado a guia. Preciso deste medicamento para curar minha doença, continuar viva e criar meus dois filhos.
Segundo ela, que tem 40 anos de idade e reside em Londrina, o tumor cancerígeno localizado no pescoço começou a reagir negativamente por falta desta que seria a terceira aplicação de quimioterapia. As aplicações devem ocorrer sempre a cada 28 dias. Temo que o processo de cura seja interrompido e a minha saúde prejudicada. Meu tumor, inclusive, voltou a inchar nestes últimos dias, afirma Maria da Silva.
Em Londrina, este tipo de tratamento atende cerca de mil pacientes e é prestado através do SUS nos hospitais ICL, Alto da Colina - que pertence ao Hospital Evangélico - e Hospital Universitário. O diretor clínico do Instituto de Câncer, Mário Liberatti, admite que alguns pacientes têm tido atraso no atendimento em consequência da demora na liberação da guia pelo SUS. Mas é por poucos dias, nada que prejudique a saúde do paciente e o tratamento. É normal que o paciente, com uma doença grave, fique preocupado. Mas ninguém será prejudicado, garante Liberatti.
De acordo com ele, o ICL está mantendo o atendimento inclusive sem a garantia de que receberá posteriormente do SUS. Cerca de 50% das aplicações de quimioterapia do mês de novembro não tiveram ainda a liberação das guias de autorização pelo SUS, ressalta o diretor clínico. O ICL realiza perto de 500 procedimentos quimioterápicos mensais para pacientes do SUS. As aplicações de quimioterapia - juntamente com a radioterapia e cirurgia - formam o tripé básico na tentativa de cura dos diferentes tipos de câncer.
Em Londrina, a emissão das guias para as aplicações de quimioterapia e radioterapia e posterior pagamento delas aos hospitais é centralizada na Diretoria de Controle e Avaliação da Secretaria Municipal de Saúde. A responsável por ela, médica Rosângela Libanori, explica que alguns problemas ocorreram porque a nova sistemática de controle deste setor foi implantado pelo Ministério da Previdência Social no início de novembro.
É uma questão de procedimentos burocráticos, que leva algum tempo para adaptação dos setores financeiros e de faturamento dos hospitais. Mas eles foram implantados para melhorar o sistema, e não tivemos aqui reclamações de que estejam prejudicando os pacientes, diz Rosângela Libanori, lembrando que o SUS gasta mensalmente cerca de R$ 500 mil com estes procedimentos em Londrina.


