Dona Amélia Giani não foi a primeira, nem tampouco será a última. Por volta das 11 horas de quarta-feira, ela enroscou o pé num buraco no Calçadão da Avenida Paraná (Centro de Londrina), caiu, machucou o pé, joelho e braço. E ela ainda se recupera de uma fratura nas costelas causada por um acidente de carro. ''O pior foi que na hora me senti humilhada. Hoje (ontem), quando acordei, é que senti a dor. Parecia que tinha levado uma surra. Só não fui na hora reclamar na prefeitura, porque estava com o forno aceso'', revela.
Aos 69 anos - ''espertos, sem essa de ficar caindo'', como ela faz questão de ressaltar -, Amélia agora se junta a uma incontável quantidade de pessoas que andam tropeçando, caindo ou perdendo salto de sapato nas pedras e grades soltas do Calçadão. ''Eu vi a senhora cair. Ela machucou mesmo'', conta a vendedora Marlene Astul.
Para ela e os colegas de trabalho, os tombos e tropeções são motivos de discussões e reclamações acaloradas. ''Para as mulheres é pior, porque quebra salto, estraga sandália. E os idosos são sempre vítimas'', afirma. Na loja em que trabalham, a troca dos saltos dos sapatos está até mais barata, de tanta gente que procura o serviço.
Para o vendedor de outra loja, José Gilson de Carvalho Pereira, a situação do Calçadão representa a falência da política e administração pública em Londrina. ''E nem adianta falar nada, que eu sou petista. Só acho que o que está sendo feito não dá'', afirmou. Segundo ele, os acidentes são tantos, que alguns chegam a ser engraçados. ''Quando a gente senta no quiosque para tomar um chopp, vemos um (tombo ou tropeção) atrás do outro'', conta.
De acordo com o presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Rubens Benedito Augusto, o piso do Calçadão está insuportável e os riscos de queda são graves. ''Imagine que com esta greve dos servidores, nem a pouca manutenção que tinha está sendo feita. O jeito foi algumas lojas arrumarem em frente das suas entradas'', afirma, em tom descontente.
Ele relembra do projeto de revitalização do Calçadão - proposto, discutido e elaborado desde 2005 - e diz que está paralisado na prefeitura. ''Acil, Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano) e secretarias de Cultura e Obras trabalharam para fazê-lo. Falta agora executá-lo. Nós já procuramos o prefeito, nos disponibilizamos a ajudar, mas não podemos fazer o serviço que compete a ele'', afirma.
Segundo o presidente do Ippul, Luiz Melo, o próprio Instituto já procurou captar recursos, mas ainda assim o projeto está paralisado. ''Algumas ações de revitalização do Centro já começaram, como o Memorial do Pioneiro, mas os planos de expansão do Calçadão e construção do banheiro público na Praça Floriano Peixoto estão parados'', reconhece.
O secretário municipal de Obras, Aloysio Crescentini de Freitas, justifica a paralisação do projeto pela falta de verba. ''É uma inicativa grande e, portanto, cara. Agora a prefeitura não tem como executar. A manutenção que, pelo menos deveria ser feita, também está paralisada por causa da greve dos servidores municipais'', acrescenta.
Melo diz não haver uma previsão para que o projeto de revitalização do Calçadão seja realizado, mas espera que isto aconteça até o final do próximo ano. ''Particularmente, acredito que seja uma obra importante, por se tratar de um cartão postal da cidade'', defende. Amélia Giani concorda: ''Eu já não reconheço mais a minha Londrina''.

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