Brincadeiras substituem baixarias do ano passado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de março de 1998
Lúcio Horta 
A violência do trote nos cursos de Medicina Veterinária e Agronomia, no ano passado, quando os calouros foram obrigados a mergulhar num poço de lama e também andar num veículo de transporte de bois cheio de estrume, entre outras barbaridades, fez com que este ano a brincadeira fosse um pouco mais tranquila.
Pelo menos é essa a impressão do calouro Carlos Roberto Abrahão. Eu também estava preocupado, mas a maioria dos veteranos é gente boa. Eles cortaram cabelo, pintaram, mas não houve abuso. Foi tudo na brincadeira, comenta o calouro. Ano passado parece que foi mais violento. Carlos Roberto diz, inclusive, que desta vez os cabeludos foram liberados da tesoura e não precisaram raspar a cabeça, como acontece tradicionalmente.
O trote nos calouros de Veterinária foi dado na última sexta-feira, quando houve a confirmação de matrícula. Falta ainda o famoso pedágio, que deve acontecer na semana que vem. Carlos Roberto acredita que este ano os novatos não deverão ser levados do campus até o centro em caminhão para bois, como ocorreu em 97. O motivo, ele explica, é a nova lei de trânsito, que proíbe e multa esse tipo de transporte.
A repercussão do trote do ano passado, no entanto, continua dando margem para boatos. A mãe de uma aluna do curso de Veterinária ligou indignada para Folha nesta semana porque, segundo ela, a filha havia passado por diversos constrangimentos no dia da confirmação da matrícula. A caloura teria sido sujada com graxa, violeta genciana (líquido azul) e, no final, vômito humano. A mãe não quis se identificar, com receio de que a filha fosse hostilizada durante o curso. Não vi nada disso. Talvez ela tenha ficado assustada ou então é de outra turma. Mas conversei com muita gente do meu curso e não sei de nada escabroso, comenta Carlos Roberto.
No curso de Agronomia, a preocupação com o trote chegou até a diretoria. Ernest Muller, diretor do Centro de Ciências Agrárias (CCA), comenta que até ontem não havia recebido nenhuma reclamação oficial, mas os boatos eram muitos. Ele admite, porém, que o trote continua. A gente tem conversado muito, para ver se eles mudam esse hábito besta, mas é difícil, diz.
Segundo Muller, no caso de haver abuso na brincadeira dentro do campus da UEL, é possível abrir inquérito disciplinar e até punir possíveis responsáveis, inclusive porque a própria Reitoria proibiu este tipo de prática. Ainda assim, quando não há flagrante, deve haver denúncia. Já se o trote for feito fora do campus, não há como interferir. O grande problema é que calouro não fala, fica com medo.


