Os ingredientes são simples, mas o resultado da mistura é muito perigoso. Basta um pouco de cola e farelos de caco de vidro para que se consiga o ''cerol'', composto usado para encerar a linha da pipa. É assim que alguns meninos conseguem ''cortar'' a pipa dos outros garotos, ''roubando'' o brinquedo. As próprias crianças conhecem e descrevem os perigos da mistura, que vão desde pequenos cortes na pele, por causa do manuseio do produto, até choques elétricos se a linha da pipa enroscar nos fios de alta tensão. Mesmo sabendo do perigo, muitos deles continuam com essa brincadeira arriscada. No último domingo, uma criança de três anos ficou gravemente ferida ao ser atingida por uma linha com cerol.
O garoto Luíz Henrique Maciel Varoto, de apenas sete anos, afirmou que não encera a pipa com cerol porque sabe que a mistura é perigosa. Henrique explicou que os garotos maiores usam o composto para roubar a pipa dos menores. Ele mora na zona leste de Londrina.
A mãe de Henrique, Maria de Lourdes Maciel, disse que não deixa os filhos brincarem com o cerol. ''Eu não deixo de jeito nenhum, mas vem as crianças maiores e usam'', reclamou. Ela disse que há alguns dias, Henrique estava brincando com um primo e não viu um pedaço de linha com cerol que estava no chão e machucou o pé. ''Por pouco ele ele não fica sem o dedinho.'' Maria acrescentou que a única forma de prevenir o perigo é orientar os filhos. ''Eu explico que é perigoso e os males que podem causar, mas não posso impedir que outros meninos façam isso''.
O comandante da 2 Companhia do 5º Batalhão de Polícia Militar, capitão Sérgio Dalbem, explicou que legalmente não existe uma maneira de impedir o uso do cerol. Segundo ele, no Código Penal não existe essa discriminação e a polícia só pode agir se acontecer uma lesão. ''Se alguém se machucar nós podemos enquadrar o fato pelo artigo 129 do Código Penal, como lesão corporal'', contou.
De acordo com o capitão, a polícia não pode proibir o uso do produto e se fizer isso pode estar cometendo abuso de autoridade. Ele explicou que o uso do cerol é como a faca de cozinha. ''Não é proibido, mas se acontecer algum crime eu posso enquadrar como uso de arma branca.''
Para o policial rodoviário Claudinei Pereira dos Santos, 26, o fato de usar o cerol significa colocar em risco a vida ou a segurança das pessoas. Há dois anos, ele sofreu um acidente com o produto. ''Eu estava andando de bicicleta e uma linha com cerol cortou o meu nariz.'' Ele relatou que toda vez que vê um grupo de crianças brincando com a cera, pede 'gentilmente', que dê o produto. ''O bom é que eles entregam e se conscientizam do perigo'', disse.
Ontem à tarde, Santos surpreendeu três rapazes passando cerol na linha de uma pipa, no Residencial Abussafe (zona leste). Depois de conversar com os garotos, o material foi apreendido e levado para reciclagem em uma escola do bairro.
Claudinei contou que também faz palestras nas escolas municipais e estaduais. ''Eu trabalho na escola de trânsito e sempre que tenho tempo, durante as palestras, alerto para o perigo dessa cera''.

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