'Briga por terra é a causa da matança'
Psicóloga preparou dôssie com 23 casos arquivados na Polícia como suicídios; em seis há evidências claras de crime
DivulgaçãoQUADRO DESOLADORMenina índia (à esquerda) se alimenta com melancia jogada na rua, em Dourados; acima, moradia das famílias da Reserva Indígena de Dourados; à direita, o jornalista Osmar Santos que contesta a versão oficial sobre morte de índio que conheciaPaulo San Martin A primeira denúncia formal de que muitos dos suicídios de índios guarani/kaiowás são homicídios mascarados foi apresentada em maio de 96 pela psicóloga e indigenista Roseli Cândido de Arruda, em sua dissertação de mestrado na Faculdade de Antropologia da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul.
Para concluir a dissertação, que ela chamou de Dossiê Guarani, Roseli investigou durante mais de dois anos 23 casos arquivados na polícia de Dourados como suicídios. Em seis destes casos ela encontrou evidências claras de assassinato. Em outros, estas evidências até existiam, mas sua comprovação já se tornara muito difícil, relata.
Os suicídios de índios chamaram a atenção de Roseli Arruda em 1990. Os primeiros casos haviam sido registrados quase 10 anos antes, em 1981. Mas, até então não passavam de meia dúzia por ano. Em 90 houve uma explosão de casos. Trinta e quatro índios se suicidaram, 20 dos quais na Reserva Indígena de Dourados, lembra.
A partir de então, a cada ano começaram a ser registrados pelo menos 20 novos suicídios, a maioria em Dourados. A esta altura os suicídios já me intrigavam muito, como psicóloga e como estudiosa da questão indígena. O assunto repercutira mundialmente, mas nunca fora estudado a fundo. E isso é o que mais me espantava. Afinal, as referências históricas sobre suicídios de índios são raras e, nunca nestas proporções, conta.
Em 94 ela já havia escolhido o tema para sua dissertação de mestrado. Mas, em 95, quando ia iniciar a pesquisa de campo, o Conselho Indígena da Reserva de Dourados fechou suas portas para os não-índios. Aquele foi um ano particularmente difícil para os guaranis/kaiowás. Cinquenta e seis índios se suicidaram no Estado, 21 dos quais na reserva de Dourados.
Impedida de entrar, Roseli decidiu iniciar seu trabalho investigando os arquivos da polícia. Foi minha sorte. Até então eu tinha certeza que todos os casos eram realmente suicídios. E, se fosse me basear apenas em depoimentos colhidos dentro da aldeia, talvez continuasse com esta certeza. Mas ali na polícia, descobri a superficialidade com que os inquéritos haviam sido conduzidos, lembra.
Um dos casos investigados por Roseli Arruda, o do índio Romão Gomes da Silva, 32 anos, se tornou clássico. Ele estava enforcado em um galho que não tinha condições de sustentar seu peso. Além disso, apresentava ferimentos profundos na cabeça. Apenas observando as fotos e com base em alguns depoimentos, tive certeza que o corpo fora colocado ali com o intuito de burlar a Justiça, lembra.
Mesmo assim, o boletim de ocorrência registrado sob o número 1.741, de 1995, e o inquérito policial concluíram pela tese do suicídio. Esta tese seria desmentida pela Polícia Federal, em maio de 96, assim que o Dossiê Guarani se tornou público. Outro caso que me impressionou, pela obviedade, foi o do adolescente S.E., de 15 anos, conta.
O boletim de ocorrência e o inquérito policial concluem que S.E. suicidou-se ingerindo veneno. Mas seus pais relatam que ele mesmo contara, momentos antes de morrer, como fora envenenada quando voltava de um baile. S.E. havia encontrado, na estrada, uma pessoa - que ele não identificou aos familiares - e essa pessoa ofereceu um pequeno frasco, dizendo que era pinga. Assim que bebeu o líquido, S.E. começou a se sentir mal e faleceu minutos depois de chegar em casa, relata.
No Dossiê Guarani, Roseli Arruda acusa formalmente o Conselho Indígena da reserva, também conhecido por Polícia Indígena, como responsável pelos assassinatos. A causa óbvia é a briga pela terra. Quase todos os índios que aparecem suicidados são adolescentes, entrando na idade de constituir família. Quando eles chegam aos 14, 15 anos, começam a pleitear a terra a que têm direito, para montar sua casa. Estranhamente, são estes que aparecem mortos. Fora destes casos, morrem os líderes que se rebelam contra o Conselho Indígena e as velhas, mães de jovens mortos, que decidiram protestar, afirma.
O caso do índio kaiowá Paulo Daniel, de 21 anos, e de seus irmão Ricardo Daniel, 16 anos, é exemplar. Ricardo foi encontrado morto, aparentemente enforcado na própria camisa, depois que pediu terras para montar sua casa. Três meses depois o irmão Paulo Daniel também apareceu morto. Nos dois casos, o inquérito na Polícia Civil foi rapidamente arquivado como suicídio.
Inconformado, o pai dos dois Narciso Daniel, registrou uma queixa na Polícia Federal. Narciso contou que Paulo Daniel, quando morreu, era funcionário de uma usina de álcool em Rio Brilhante, cidade próxima a Dourados. No dia anterior a sua morte, havia retornado para casa e foi comunicado pelo Conselho Indígena que sua terra havia sido repartida entre um grupo de índios da reserva.
Daniel procurou o responsável pelo Conselho. Como não o encontrou, disse que iria até a casa de seu pai e que voltaria em seguida. No caminho, parou em um bar da aldeia para jogar sinuca. Foi quando um grupo de integrantes do Conselho chegou à casa de seu pai, com armas de fogo, exigindo que ele revelasse o paradeiro de Paulo. Como ninguém em casa sabia onde ele estava - contou Narciso - eles foram embora dizendo que encontrariam meu filho. No dia seguinte, Paulo apareceu morto.
Segundo Narciso, Paulo não tinha porque se matar. Assim que o Conselho Indígena soube do depoimento de Narciso na Polícia Federal, o espancou violentamente. Dez dias depois sua esposa também se suicidou. Apavorado, Narciso recusa-se, hoje, a falar com a Polícia ou com jornalistas.
O jornalista Osmar Santos, que era amigo pessoal de Paulo Daniel, também contesta a versão oficial sobre a morte do índio. Paulo Daniel era um líder na sua comunidade. Ele trabalhava fora, se relacionava com muitos brancos, tinha projetos de montar uma lavoura em suas terras e estava prestes a se casar quando morreu, lembra.
No ano anterior à morte do amigo índio, Osmar Santos, que há mais de 15 anos se dedica à questão indígena, chegou a ganhar um prêmio, conferido pela Câmara de Vereadores de Dourados e pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, por sua reportagem sobre os suicídios na Reserva de Dourados. Ao longo de todo o texto, deixei clara a suspeita de que muitos casos eram homicídios disfarçados. Mas, naquele tempo, eu falava sozinho e me faltavam provas para formular uma denúncia, diz.





