Brasileiros evangelizam a África
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sábado, 08 de outubro de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O coração da África expõe a pobreza de países, entre os quais o Sudão, a nação mais miserável do mundo. Um flagelo humano de entonação apocalíptica, como uma nuvem de gafanhotos, levando sobre as asas estatísticas que enumeram populações devastadas por guerras civis, a fome e a Aids.
Num sobrevôo pelo continente em que a Organização das Nações Unidas (ONU) aponta as 33 nações mais pobres de um total de 40 no planeta, os números das vítimas da Aids enfileiram 8.500 pessoas contaminadas pelo HIV por dia, apenas na Região Subsaariana. Nessa mesma fração de tempo e território da África, 6.300 africanos morrem da doença.
Um submundo criado por situações políticas, econômicas e culturais, que extrai a fórceps a vontade de sobreviver de pelo menos 12,5 milhões de crianças órfãos da Aids.
Calcula-se que 2 milhões de crianças tenham morrido em conflitos na África entre 1991 e 2000. Seis milhões ficaram feridas ou incapacitadas nessas guerras, responsáveis por 5 milhões de refugiados.
É nesse cenário, onde a pobreza se associa às moléstias que afrontam e debilitam a sa© úde pública, entre as quais a própria Aids, a malária e outras doenças transmissíveis, sendo que a relação de médicos por pessoas é de apenas cinco para cada 10 mil habitantes, que missionários da Missão para o Interior da África (Miaf), o braço da Africa Inland Mission (AIM) para a América Latina, uma organização missionária internacional evangélica, pretende alcançar estes povos.
Através da organização inter-denominacional, a mão de Deus acolhe 21 países africanos, onde estão cerca de 1.000 enviados. Quarenta são brasileiros, sendo que alguns em fase de preparação.
Eles seguem a trajetória de Warren e Donna Pett, casal de missionários norte-americano, que morreu em missão.
Os dois serviam como professores escolares técnicos, morrendo em março de 2004 numa emboscada durante um deslocamento em Uganda. Além deles, um estudante da escola técnica foi metralhado. Outro garoto africano sobreviveu, apesar dos ferimentos.
O casal Warren e Donna, que já tinha trabalhado anteriormente no Quênia, foi inspirado pelo fundador da Miaf, o escocês Peter Cameron Scott.
Em 1895, ele decidiu levar o Evangelho aos povos do interior da África, liderando o primeiro grupo para Mombasa, no Quênia, onde morreu de febre desconhecida, 14 meses depois.
Itinerário semelhante está fazendo o casal carioca, o pastor e escritor Jairo de Oliveira, 26 anos, e a professora e auxiliar de enfermagem Vânia Rangel, 30 anos. Desde janeiro, os dois estão na África do Sul se preparando para a missão no interior do continente.''Esperamos encontrar um povo receptivo, apesar de não haver muita receptividade à mensagem cristã nos países do norte da África'', afirma Jairo.
Como bons cariocas, Jairo e Vânia não esqueceram de levar na bagagem um pandeiro e CDs de música cristã para lembrarem do Brasil e um filme com fotos do último Natal em família. Os dois também levaram um peso extra na missão.
''Normalmente nos preocupamos com a segurança, saúde e com o futuro quando pensamos em filhos. Talvez, o nosso maior medo seja o de fracassar em nossa missão. Tememos desagradar a Deus e nos tornarmos desaprovados no relacionamento com o povo. Comportamentos como superioridade ou imposição cultural podem pôr tudo a perder'', ressalta Jairo.
No Brasil ainda existem regiões em situações tão adversas quanto às que os missionários encontram na África, onde poderiam exercer o ministério. A decisão de calçarem as sandálias do Evangelho em outro continente tem suas explicações.
''O Brasil representa um grande desafio missionário e algumas realidades são semelhantes às do continente africano, principalmente entre os povos indígenas. Entretanto, não são os desafios que determinam onde devemos atuar. Trata-se de uma questão de vocação em que nossa vontade pessoal fica submetida ao que entendemos ser a vontade de Deus para nós. É interessante notar que temos missionários africanos no Brasil e, ao mesmo tempo, temos missionários brasileiros na África. Encontramos missionários brasileiros nos Estados Unidos, enquanto encontramos missionários americanos no Brasil. Não há nenhuma estratégia por trás de tudo isso. O que explica esse fenômeno é a multiforme sabedoria de Deus'', afirma Jairo, que se prepara para a missão em um país fechado para o Evangelho e que, por questões de segurança, prefere manter segredo sobre o seu destino.
Na cidade onde vai se estabalecer, o casal ajudará a estabelecer igrejas. Diferente de implantar igrejas, os missionários pretendem 'plantar' igrejas. ''O nosso objetivo não é estabelecer a nossa igreja e sim colaborar para que as comunidades possam caminhar sozinhas''.


