Brasil precisa ter vergonha na cara
Brasil precisa ter vergonha na cara
Bernardo Resende, o técnico do Rexona/Paraná, diz que a organização leva a vitórias em qualquer setor
Sem modéstia:
Trabalhador,
determinado
e vencedor
Cada dia
de nossa vida
é uma obra de
arte inacabada
Mudar com
honestidade e
vontade de
acertar
Marcos Freitas
Especial para a Folha
Albari Rosa
ReceitaTécnico do Rexona/Paraná e da Seleção Brasileira feminina de vôlei é um obstinado pela organizaçãoÀ frente de um time com nome de desodorante e formado por beldades fortes e decididas, o carioca Bernardo Resende colocou Curitiba no mapa do vôlei brasileiro ao conquistar no dia 7 deste mês, em Jundiaí, o título brasileiro em nome do Paraná. A equipe foi formada este ano mesmo, fruto de uma bem-sucedida parceria entre o governo e a Gessy Lever. O Rexona/Paraná já é uma realidade e pode ser o começo da consolidação do Estado como importante pólo do vôlei e de outros esportes.
Bernardinho, cujo apelido só se justifica entre os grandalhões das quadras, nasceu no Rio, em agosto de 1959, quando o vôlei ainda era um esporte praticado mais pelos garotões de praia. Criado em Copacabana com quatro irmãos, começou a jogar no Fluminense, aos 11 anos. Formou-se em economia em 1984, pela PUC-RJ, onde foi aluno de Pérsio Arida e André Lara Resende. E se tornou figura pública ao integrar o ótimo time medalha de prata da Olimpíada de Los Angeles. Era reserva de William, e com muito orgulho. Como técnico, começou no italiano Peruggia, em 1989, depois de, um ano antes, ter sido assistente da seleção feminina que disputou a Olimpíada de Seul.
Marcelo Almeida
Começamos do zero, a partir da reforma do ginásio do Tarumã e do trabalho com garotos, até a conquista do títuloEx-marido de Vera Mossa, uma das primeiras musas do vôlei, com quem teve o filho Bruno, 11, é casado com Fernanda Venturini, a estrela do Rexona - levantadora como ele e, para muitos, a melhor do mundo. Adotado por Curitiba, cidade que aprendeu a admirar, mas com a qual se preocupa, Bernardinho, em quadra, parece à beira de um infarto, mas fora dela tem a serenidade de um senhor. Modéstia à parte, ele cita suas três principais qualidades: trabalhador, determinado e vencedor.
Folha - Como é trabalhar no Paraná?
Bernardinho - O Rexona havia me procurado antes do governo do Estado, que depois fechou a parceria. É, antes de tudo, um projeto social importante, com o qual vamos levar o vôlei a outros centros. Começamos do zero, a partir da reforma do ginásio do Tarumã e do trabalho com garotos, até a conquista do título.
Folha - Que tal viver em Curitiba?
Bernardinho - Morar em Curitiba é muito bom. A cidade tem uma qualidade de vida maravilhosa, mas é fundamental tomar alguns cuidados para que ela não se torne refém de males como a miséria e a violência que assolam outras capitais.
Folha - Quem bons exemplos o vôlei pode transmitir a nosso polêmico futebol?
Bernardinho - O profissionalismo do vôlei pode e muito ajudar nosso futebol. A organização é que vai determinar o sucesso de uma equipe. O que precisa acabar é com os donos dos times, aquelas pessoas que sempre viveram do futebol de forma bem antiprofissional. Estes têm de ser banidos do esporte, pois fazem muito pouco ou nada pelo bem do futebol. O exemplo da vitória do Rexona é eloquente. Foi a vitória do trabalho e da organização. A vitória de um grupo aplicado e vencedor, que uniu o time, a equipe técnica, os patrocinadores e a torcida.
FolhaE o futebol brasileiro, apesar de tudo? Vamos ou não vamos ser penta? E o Zagallo?
Bernardinho - O Brasil pode ser penta. Eu sempre digo, brincando, que todo mundo tenta, mas só a Fernanda é penta. A seleção tem talento, mas precisa de um padrão de jogo e, para isso, precisa treinar muito. Gosto do Zagallo, acho que ele é um vencedor, um conhecedor do futebol. A ajuda do Zico vai trazer bons resultados. E na equipe Dunga é meu número um, o verdadeiro. Não tem vaidades, é um cara que ama a camisa amarelinha. Dunga é um sujeito que saiu da berlinda de ser um perdedor e se tranformou no herói do tetra. Ele merece os nossos respeitos.
Folha - O Paraná vai mesmo se transformar num pólo esportivo?
#145;É fundamental tomar alguns cuidados para que Curitiba não se torne refém de males como a miséria e a violência que assolam outras capiBernardinho - Vai, graças ao trabalho do governo e de seus secretários. Maringá vai montar um bom time de vôlei para a próxima Superliga e isso me deixa feliz. Sinto-me orgulhoso, pois vim para somar e os resultados já estão sendo mostrados. Não só o título, mas as escolinhas de base espalhadas pelo Estado em quatro anos logo darão bons resultados. Várias crianças que participaram da nossa peneira (teste seletivo) já estão estudando em bons colégios e trabalhando com o vôlei. E são crianças carentes que já vislumbram um futuro melhor. Estamos conseguindo mudar a vida de muitas pessoas que até então não tiham previsão de um bom futuro.
Folha - Esporte combina com drogas? E se houvesse um caso em sua equipe?
Bernardinho - O esporte sai na frente na luta contra as drogas. Um jovem ocupado não procura drogas e sim, sucesso. E o esporte é que pode mudar o Brasil. Já fumei maconha, mas decisivamente não é a minha, e nunca experimentei drogas pesadas. Em minha equipe, se souber que alguma atleta fuma maconha ou consome outro tipo de droga, terei de cortá-la por causa dos exames antidoping, para começo de conversa.
Folha - Em que medida a motivação que você impõe nas quadras pode servir para as pessoas comuns?
Folha - Nas palestras que faço sempre abordo o aspecto da motivação do trabalho em grupo. Acho que a cada dia precisamos melhorar em alguma coisa. Cada dia de nossa vida é uma obra de arte inacabada, que pode terminar bem ou mal. Depende muito da gente. A obstinação em vencer, buscar a qualidade, pode mudar a vida de qualquer pessoa. Os resultados alcançados neste primeiro ano de trabalho com o Rexona/Paraná podem, sim, servir de exemplo para empresas e para um governo. Como? Com obstinação, trabalhando em equipe, com muita organização é possível dar certo nas quadras, campos, indústrias e gabinetes.
Folha - O que políticos como Brizola, Lula e Fernando Henrique têm em comum com as suas jogadoras?
Bernardinho - Não vou comparar as jogadoras a esses políticos. Não gosto do Brizola, nunca vi nenhuma qualidade nele. Morei no Rio na época em que ele era governador e nada de bom acontecia. Todos os projetos que ele apresentava não me satisfaziam como cidadão. O Lula eu respeito muito, é um trabalhador, tem bons projetos e idéias sensacionais. Mas a esquerda do Brasil está perdida, não apresenta um bom programa, ainda está meio crua. Creio que a esquerda precisa ter mais experiência administrativa para provar capacidade.Folha - E Ciro Gomes?
Bernardinho - Gosto dele, acho suas ponderações relevantes. Tenho ouvido suas entrevistas e palestras, e elas me têm chamado a atenção. Concordo que não podemos viver sob os louros do Plano Real e esquecer do básico como saúde, educação etc. Fernando Henrique é um líder, fala bem, tem experiência e está fazendo um bom trabalho. Mas deixa a desejar em certos aspectos, como o social, por exemplo.
Folha - Em quem você tem votado?
Bernardinho - Votei no Collor em 89, na última estava na Europa. Agora talvez vote em Fernando Henrique. Sou eleitor no Rio, e lá ainda não tenho candidato.
Folha - Você acha que o Ministério Extraordinário dos Esportes precisa ser reativado? Quem você indicaria?
Bernardinho - O ministério precisa ser reativado. O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, é um bom nome para assumir o cargo. O ministro não precisa ser um ex-atleta, mas alguns se deram bem. Zico, Paulão, Hortência, Bernard, Oscar, Montanaro, entre outros, mostram e mostraram que podem fazer muito pelo esporte nacional.
Folha - Com todo seu prestígio no Paraná, você trabalharia na campanha pela reeleição do governador Jaime Lerner?
Bernardinho - Nunca me foi pedido para ser cabo eleitoral do Lerner. Mas não vou deixar de falar de excelente trabalho que ele tem feito pelo esporte. Qualquer candidato que tiver um bom projeto para o esporte, mesmo sendo de oposição, eu tenho de apoiar.
FolhaComo você ganha dinheiro fora do vôlei?
Bernardinho - Tenho no Rio a Delírio Tropical, uma cadeia de restaurantes especializados em comida natural, com muita salada e supersanduíches. Pretendo trazer uma filial para Curitiba. Aqui na cidade tenho com a Fernanda uma loja de artigos esportivos, no Mueller.
Folha - Uma pergunta inevitável, 30 anos depois de tudo: onde você estava em maio de 68?
Folha - Tinha oito anos e me lembro pouco daquela época. Mas a lição para a juventude de então pode se transferir para agora. Os jovens não podem ficar alienados. Estamos na era do rap e do videogame, mas a vida é mais que isso. O jovem precisa ler, se informar. Precisa estudar para crescer e fazer o Brasil crescer e se desenvolver.
Folha - Quem são seus ídolos?
Bernardinho - O principal é meu pai: positivista, sereno e vencedor. No esporte é Karch Kiraly, jogador de vôlei norte-americano, duas vezes campeão olímpico e uma vez campeão mundial de praia.
Folha - Quais suas maiores emoções no esporte?
Bernardinho - Foram muitas. Na Copa de 70, a conquista do tricampeonato foi uma grande emoção. Inesquecível foi quando era jogador, em 1982, no Maracanazinho lotado. Eu e Montanaro entramos para jogar o Mundialito e estávamos perdendo por um a zero. Viramos o jogo e o ginásio quase veio abaixo. O carinho da torcida naquele dia foi maravilhoso. Outro momento inesquecível foi no comando da seleção brasileira feminina de vôlei, em 1994, quando conseguimos ser campeões do Grand Prix e vice-campeões mundiais. Dois anos depois conquistamos o bronze em Atlanta, em tão pouco tempo de preparação. E, é claro, foi muito bom ser campeão pelo Paraná/Rexona.
Folha - O Brasil tem jeito?
Bernardinho - O Brasil vai dar certo, sim, mas quando resolver a sua principal crise, que não é a social nem a econômica. É a crise moral. É a questão de valores. O que é preciso é mudar algumas coisas com honestidade, lealdade, vontade de acertar. É claro que precisamos resolver a questão econômica, social, a saúde, a violência etc. Mas precisamos atacar a questão moral. O Brasil precisa ter vergonha na cara.





