São Paulo - Desde o final do ano passado, as chuvas castigam diversos Estados do Brasil, causando mortes e obrigando milhares de pessoas a deixar suas casas. Embora a Secretaria Nacional de Defesa Civil (Sedec), do Ministério da Integração Nacional, não tenha um registro exato do número de mortes, levantamento feito pela reportagem junto às Defesas Civis estaduais aponta que ao menos 160 pessoas morreram desde setembro de 2008.
Do total, 135 ocorreram em Santa Catarina - onde a Defesa Civil ainda procura por seis desaparecidos - e 25 em Minas. Porém, o número pode ser maior, já que é possível que as Defesas Civis dos municípios não tenham comunicado aos órgãos estaduais a ocorrência de novos casos.
''Nessa situação, os órgãos se preocupam em atender as pessoas e não em contabilizar e divulgar a informação,até porque grande parte dos municípios não têm uma estrutura organizada para lidar com esse tipo de tragédia'', afirma Sérgio José Bezerra, coordenador geral do departamento de Minimização de Desastres da Sedec.
Até 31 de dezembro, dos 5.563 municípios brasileiros, aproximadamente 1.360 não contavam com uma Defesa Civil municipal. Com a troca dos prefeitos no dia 1º de janeiro, a Sedec estima que o número de cidades sem a Defesa deva aumentar bastante, já que, tradicionalmente, a maior parte dos municípios altera a coordenação e muitas são extintas até que novas equipes sejam treinadas.
De acordo com Bezerra, dados do Sedec revelam que o Brasil é o país com o maior número de pessoas afetadas pelas chuvas e enchentes no Hemisfério Sul, não só em 2008, mas anualmente. No ano passado, por exemplo, as chuvas afetaram 1,5 milhão de pessoas em Santa Catarina e 1,5 milhão de pessoas no Nordeste.
Apesar disso, o país ainda enfrenta grandes dificuldades em lidar com catástrofes naturais. ''A tragédia de Santa Catarina revelou como o Brasil não está preparado para lidar com catástrofes. A ação preventiva não é levada a sério no Brasil, apesar de todos os esforços'', avalia Bezerra, que defende a inclusão de capacitações sobre o tema nas escolas.
Segundo o coordenador, um dos principais motivos é a falta de ''percepção de riscos'' dos brasileiros. ''Porque não fomos educados para reconhecer os riscos. Muitos não têm nem noção da gravidade, e se arriscam a morar em morros e em áreas que já estão condenadas a cair desde o início'', diz.
Tanto em Santa Catarina, quanto em Minas, as Defesas Civis estaduais estimam que a maioria das pessoas morreu soterradas em suas casas. Para Bezerra, a ocupação de áreas de risco no Brasil é um problema ''crônico'', e não afeta somente a população de baixa renda, mas também a classe média e alta. ''É muito difícil retirar essas pessoas de suas casas, tanto porque muitas têm medo de não ter pra onde ir, mas a maioria se apega psicologicamente ao local e se recusa a sair, ou volta mesmo depois de retirada a força e morre'', afirma.
Para o coordenador, o Brasil deve se preparar para contabilizar um número maior de mortes em decorrência das chuvas. ''Se a ameaça das chuvas se intensificar em uma área que já está vulnerável, podemos esperar por mais mortes. Muitas pessoas não querem deixar suas casas e morrem por causa disso. É um processo crônico, de difícil solução, que deve continuar.''

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