'Brasil é viveiro dos movimentos sociais'
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de maio de 1999
Walter Ogama 
Os movimentos sociais brasileiros têm vivacidade e momentos de euforia, mas enfrentam dificuldades de organização, articulação e de elaboração de projetos políticos consistentes. A avaliação é do doutor em ciências sociais Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) em São Paulo.
Autor de livros e estudos publicados em revistas especializadas, o professor foi uma das personalidades nacionais que participaram da Semana de Ciências Sociais promovida pelo Departamento de Ciências Sociais, Pós-graduação em Sociologia e Sociologia da Educação, e Centro de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), de segunda à sexta-feira.
Rodrigues de Almeida trabalha com o tema movimentos sociais desde os anos 50 e disse, durante palestra que proferiu na noite de quinta-feira, que o Brasil é um viveiro de lutas sociais e a idéia de que o povo brasileiro é passivo, acomodado, pacífico e ordeiro não passa de um mito imposto para tentar esconder a realidade. Ele mencionou algumas campanhas memoráveis, como a do petróleo (veja na página 4) entre o final dos anos 40 e o início da década de 50, e o da reforma agrária que ganha na atualidade maior projeção com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
O professor lamenta, em entrevista à Folha, que algumas questões nacionais que poderiam ser solucionadas no século passado ficaram pendentes. Uma delas o da própria reforma agrária, que conforme avalia resulta hoje em grandes problemas sociais urbanos: o inchaço das periferias, o desemprego e a violência, por exemplo. Quando pensamos na questão da democracia, também temos lições de casa para serem feitas, resume.
Arquivo FolhaMobilização pela reforma agrária no ParanáSão essas duas questões, conforme Rodrigues de Almeida, geradoras de grande quantidade de insatisfações na população brasileira. Quanto ao fato dos movimentos sociais brasileiros apresentarem alguns momentos de euforia e vivacidade e outros de depressão, o sociólogo manifesta preocupação. Não é bom isso porque mata gente, o desemprego corta esperanças, cria fome. Tudo isso numa época que sucede uma onda de expectativas, como as provocadas pela campanha das Diretas Já e pelos vários planos econômicos que foram adotados no País, inclusive o Real. E a sucessão de frustrações, acrescenta o sociólogo, abre caminho para alternativas salvacionistas, inclusive que pendam para as soluções autoritárias.
Por outro lado, diz o Rodrigues de Almeida, alguns movimentos sociais conseguem fazer verdadeiros milagres com a quantidade mínima de recursos. O MST, por exemplo, com a luta pela reforma agrária consegue apontar saídas para o desemprego, para as crianças abandonadas, para o combate à criminalidade urbana. Portanto, o balanço que eu faço dos movimentos sociais é crítico, mas positivo.
Um dos pontos críticos, segundo o sociólogo, é o dos segmentos sociais que esperam muito do governo. É uma tradição muito forte e esse lado do pêndulo, que depende do Estado, foi muito frequente durante o governo de Getúlio Vargas.
No outro extremo do pêndulo, prossegue Rodrigues de Almeida, estão os que se classificam como liberais. Estes discursam contra a forte intervenção do Estado nos setores da iniciativa privada, defendem o enxugamento da máquina administrativa, têm grande influência sobre ampla camada dos movimentos populares, mas a qualquer sinal de perigo recorrem rapidamente ao governo. É o liberalismo de fachada, exemplifica, citando os históricos casos de socorro aos bancos privados pelo governo.
Já os setores populares, no entender do sociólogo, devem querer um Estado forte, para garantir a implementação de políticas sociais indispensáveis. Mas não para controlar os movimentos sociais, inclusive de trabalhadores. Sim, para colocar à disposição da população políticas habitacionais, de saúde, de educação, por exemplo.


