Brasil bate recorde de procedimentos
Hoje existem cerca de 60 mil pessoas à espera de um transplante no Brasil. Apesar de o número de doadores ainda ser pequeno, o Brasil bateu um recorde em 2004: de janeiro a maio, o total de transplantes realizados no país superou em 27,1% o desempenho no mesmo período de 2003. Em números absolutos, foram 8.544 procedimentos até abril deste ano, contra os 4.561 no ano passado.
Em Londrina são realizados somente transplantes de rim, córnea e coração. Os pacientes que necessitam de transplante de fígado são encaminhados para o Hospital de Clínicas de Curitiba, onde uma equipe médica avalia e coloca na fila de espera da Central Estadual de Transplante. A Central de Notificação e Captação de Órgãos em Londrina não tem o cadastro dos pacientes que aguardam o transplante de fígado. No ano passado, foram realizados em Londrina 19 transplantes de rim e 121 de córneas. Para este ano, pelo menos 70 pacientes estão aguardando pelo transplente de córnea, 335 de rim e 3 do coração.
A responsável técnica pela Central de Notificação e Captação de Órgãos em Londrina, Ogle Beatriz Bacchi, informa que de todos os óbitos de pacientes (em condições de doação) em 2003, apenas 39% foram doados. ''Esse índice é baixíssimo, se comparamos com a procura'', afirma Ogle. Para ela, embora exista uma lei que regulamenta as doações, não há no Brasil a cultura de doação. ''A legislação organizou as centrais e criou o Sistema Nacional de Transplantes, que tem a missão de ordenar as políticas de saúde ligadas à doação e transplante, mas a cultura da doação é um processo em construção'', frisa Ogle, acrescentando que hoje todos os receptores estão cadastrados numa lista e o sistema de busca é bem integrado e funciona no país todo.
Apesar de toda essa logística fluir bem, Ogle salienta que ainda há medo em doar os órgãos no Brasil. O receio já foi maior, principalmente quando era obrigatório constar no documento de identificação que a pessoa era doadora. ''Isso fez com que as pessoas tivessem medo de não estarem mortas e, por isso, achavam que não receberiam o tratamento adequado, correndo risco de terem seus órgãos retirados''. Há também, segundo ela, muitas notícias de comércio de órgãos, o que deixa as pessoas desconfiadas.
''As pessoas não tinham confiabilidade no serviço, mas hoje há muita transparência nesse trabalho'', comenta a responsável pela Central, lembrando que a não comprensão da morte encefálica (quando o cérebro não emite mais o comando de vida mas o coração permanece funcionando) também impede que familiares de possíveis doadores façam a doação. ''Nesse momento (da morte encefálica) é crucial a retirada de alguns órgãos. Quem passa por situações como esta faz uma série de superações. Além de lidar com o mito do corpo, tem toda a questão da morte, da perda. Mesmo diante de uma situação tão dramática, encontramos atitudes de solidariedade'', enfatiza. (V.B.)





