Brasil, avenida da fronteira
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quinta-feira, 31 de outubro de 2002
Lúcio Flávio Moura<BR>Reportagem Local 
O calor está de rachar. ''Uma vez lá no Libra, a gente fritou um ovo no asfalto''. Seo Manoel sempre tem uma história pra contar. ''Teve uma vez que sonhei que estava lá no Jupira e o carro atropelava um xirú. Anotei a placa e no outro dia, batata, deu a milhar seca. Levantei uma boa grana, comprei um motor de popa e fui pescar no Pantanal''.
Hoje em dia as coisas estão bem mais difíceis. Seo Manoel está com uma banquinha que vende toda sorte de quinquilharias. ''Tá ruim demais moço. Os gringos sumiram. Não sobra nenhuma merreca para jogar no bicho''. Amanhã, vai atravessar a ponte e negociar preço bom com estrangeiros de mau humor. Vai voltar da viagem curta e internacional rezando. ''A fiscalização tá braba''.
O seo Jacinto está do lado e sigo com meu carrinho que vende água de coco geladinha. Passa um pingando de suor, passa outro com uma sacola maior que ele. Os olhares são sedentos, mas ninguém pára, ninguém gasta, nem para matar a sede. O da sacola enorme pede um copo de água ''torneiral'' no bar. Tem sotaque nordestino e bom-humor.
O seo Jacinto começa a lembrar da época da construção da barragem. ''No domingo sempre tinha um churrasquinho com a peãozada. Não tinha miséria amigo''. Itaipu já está lá, mais parece um milagre que o barrageiro aposentado ajudou a transformar em realidade. Mas o barulho das explosões ecoam em seus ouvidos. O canteiro, um formigueiro humano, não é imagem esquecível. O reumatismo está minando suas pernas.
Caminha devagar, começa a reclamar do filho. ''Não tem mais jeito não. Aquele lá já entreguei a Deus''. O caçula, adolescente, voltou do Paraguai, onde foi ganhar a vida como empregado de brasiguaio. Não fez fortuna e engravidou uma funcionária da fazenda. A netinha do seo Jacinto já troca uns passinhos, longe do pai, preso no Cadeião, à espera de um julgamento. ''Não tenho dinheiro para pagar advogado para aquele vagabundo''. Não há perdão para o filho, que já foi cigarreiro por um tempo mas que ganhou um carro para passar maconha no Morumbi.
Seo Manoel já trabalhou com uma van. Transportava turista. ''Conheço tudo quanto é tipo de moeda: dólar, libra, peso, peseta, escudo'', vangloria-se. Mas sorri sem graça e diz que hoje só tem dívidas. ''Nunca mais vi o pessoal do hotel''. O estabelecimento fechou as portas há alguns meses e demitiu todo mundo. ''Fiz o puxadinho em casa e o dinheiro do acerto acabou''. O garoto manco que tomava conta dos carros perdeu o ponto para um rapaz que o espancou está revoltado, cheira cola, grita bobagens. ''Vai todo mundo se f... Se pedir ninguém dá, o negócio é roubá.''
O movimento está grande e começo a vencer a timidez. Quase suplico para que comprem minha água de coco. Vendas fracas. O sol vai dando uma trégua. A Avenida Brasil está cheia de pedestre e o trânsito não pára. Mas cadê o dinheiro? ''Como posso chegar na República Argentina?'', a moça fala em mau português, tem cara de alemã e um guia na mão. A explicação é breve. Ela recusa a água de coco. ''Você tem que cobrar para dar informação'', sugere seo Jacinto. Penso naquela proposta de pegar o táxi do Arnaldo a partir da meia-noite. Seo Manoel avisa: ''Toma cuidado. O que não falta nesta cidade é malandro. E táxi é isca de ladrão, meu amigo''.
A dona da banca de revistas explica como pegar a jardineira verde para as Cataratas. São 16h30 e o Parque Nacional está para fechar. ''À tardinha é ainda mais bonito. Você não vai querer sair de lá!''. As quedas estão a quase 30 quilômetros e não saem da minha cabeça. ''Prometi pro filhão que levo ele lá sábado'', digo, desanimado. Já é quinta-feira e não tenho dinheiro para os ingressos. ''O rapaizão tem 12 anos e nunca foi lá. É uma vergonha''. A imagem guardada com carinho lhe acalma: o barulho assustador do rio caindo espalhado no grande penhasco, o chuvisco eterno nas passarelas, o verde claro da mata subtropical, os quatis, folgados, roubando alfajores dos argentinos.
Enquanto o garoto manco pede mais uns trocados no sinal, lembro dos tempos duros de São Paulo. ''Fome em cidade grande não passo mais''. Lembro da infância em Minas, do bodoque e do cerrado seco. Quero esquecer e pensar em o que fazer na fronteira. ''Não quero ir embora. Gosto daqui''. A vida na avenida é dura até para as garotas de vida fácil que estão começando a chegar. Penso na promessa ao filho e toco meu carrinho avenida abaixo. Amanhã é outro dia.


