Discretos na participação política, brasileiros que vivem em Assunção confiam no novo governo de coalizão, que assumiu o comando do país há duas semanas, e apostam em um futuro melhor. Segundo a Embaixada do Brasil, 300 mil brasileiros vivem no Paraguai - quase 6% dos 5,1 milhões de habitantes.
Desse contingente, apenas 3,5 mil moram na capital. A imensa maioria são agricultores que se estabeleceram nas regiões agrícolas da fronteira com o Paraná, principalmente nos anos 70. Os brasileiros que vivem no Paraguai são conhecidos como brasiguaios.
Sérgio Cardoso de Oliveira, de 34 anos, é um bom exemplo de brasileiro bem sucedido no país vizinho. Paranaense de Cascavel, ele mora no Paraguai há sete anos.
Ney de SouzaSérgio Cardoso de Oliveira comanda no Paraguai uma rede de churrascarias e está investindo mais US$ 300 mil no negócioCom o tio, Valdinarte Cardoso, Sérgio comanda uma rede de sete churrascarias em Assunção, que se tornaram passagem obrigatória de brasileiros que viajam à cidade. A família emprega 350 pessoas - 10% dos quais brasileiros.
Apesar de não ter ‘‘ido para a rua jogar pedra em ninguém’’ durante os conflitos provocados pelo assassinato do vice-presidente, Luis María Arga¤a, no último dia 23 de março, Sérgio Cardoso está familiarizado com a política paraguaia e acompanhou com interesse os últimos acontecimentos.
‘‘Isso (a explosão popular) iria acontecer uma hora ou outra. Desde a queda de Stroessner (em 1989), havia rumores de golpe, mas a força de vontade dos jovens prevaleceu’’, diz o empresário, em entrevista à Folha. ‘‘O que eu vi foi uma emocionante demonstração de civismo’’, acrescenta.
Pai de dois filhos - um deles paraguaio -, Cardoso aprova o grupo político que assumiu o comando do país. ‘‘É gente de credibilidade, que tem respeito internacional’’. Otimista, ele está investindo US$ 300 mil em um novo restaurante, com inauguração prevista para o início do mês que vem.
Cardoso acredita que a gastronomia é um dos melhores ramos de investimento no Paraguai, país com baixa qualidade na prestação de serviços.
Menos atento à política, o também paranaense Sebastião Pedroso Guedes, de 40 anos, se assustou quando começaram a eclodir as manifestação de rua, um mês depois de ele ter emigrado de Foz do Iguaçu para Assunção. ‘‘Vi tanques de guerra nas ruas, fumaça de bombas de gás para todo lado e fiquei com medo de morrer’’, conta. ‘‘Se pudesse, teria voltado ao Brasil’’.
Guedes é maitre de um restaurante no centro de Assunção. Devido aos conflitos de rua, o estabelecimento ficou fechado durante dois dias.
Hoje, o maitre não pretende mais voltar e acredita no novo governo, que ‘‘uniu a esquerda e a direita’’. No Paraguai, Guedes, que nasceu em Pitanga (88 quilômetros ao norte de Guarapuava, no centro do Paraná), ganha 2 milhões de guaranis por mês (o equivalente a cerca de R$ 1,3 mil), mais do que o dobro do que recebia em Foz do Iguaçu.
A paraibana Bernardete da Silva Araújo, de 34 anos, que mora em Assunção há cinco anos, diz que o novo presidente paraguaio, Luis González Macchi, tem ‘‘cara de homem sério’’.
Bernardete migrou para o Paraguai com a filha de um casamento fracassado no Brasil - Lilândia, hoje com 15 anos. Há quatro anos, a paraibana vive com um chileno.
Ela é balconista de uma das três unidades de Assunção da rede de cafeterias brasileira Café do Ponto. Trabalha no Shopping Mariscal López, um requintado centro de compras na região mais nobre da capital.
‘‘Fiquei com tanto medo que, se a confusão durasse mais dois dias, teria voltado para o Brasil’’, conta Bernardete, em um português carregado com sotaques nordestino e espanhol.

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