Lúcio Flávio Moura
De Foz do Iguaçu
Especial para a Folha
Os brasiguaios que estavam ‘‘exilados’’ em Santa Helena (110 quilômetros ao norte de Foz do Iguaçu) fugindo da ação dos ‘‘campesinos’’ (sem-terra paraguaios que estão invadindo terras e saqueando propriedades) se transferiram ontem pela manhã para Foz do Iguaçu.
O grupo está alojado em duas grandes barracas de lona à margem da BR-277, a 300 metros da Ponte da Amizade (que liga Foz a Ciudad del Este, no Paraguai). O miniacampamento foi levantado por 40 manifestantes que chegaram ao local às 6 horas da manhã.
À tarde, outro ônibus, proveniente do Paraguai, engrossou o contingente, que deveria ser ampliado novamente no início da noite com um terceiro grupo, vindo também de Santa Helena.
Os brasiguaios prometem tomar o consulado brasileiro em Ciudad del Este se não obtiverem garantias de que o Itamaraty e o Ministério de Relações Exteriores do Paraguai vão negociar uma solução para o problema.
Um dos brasiguaios pioneiros em Puerto Índio, Osmar Moll, 49 anos, foi um dos primeiros a concordar com a vinda do grupo a Foz. ‘‘Em Santa Helena, estávamos isolados. Aqui vão prestar mais atenção na gente’’, acredita Moll, que em 1973 começou a derrubar as matas do leste do Paraguai, no terreno fértil que se transformaria nas duas décadas seguintes em lavouras de soja e algodão.
Há oito meses, Moll não visita sua propriedade em Puerto Índio. ‘‘Não posso voltar senão me matam’’, afirmou, desolado. ‘‘Os campesinos destruíram minha casa para construir uma colônia para eles, roubaram bois e ameaçaram minha família’’, contou Moll, um exemplo entre 150 famílias de brasiguaios que vivem a mesma situação.
Temendo represálias em um possível retorno à região de Puerto Índio (localidade paraguaia à margem do Lago de Itaipu), os brasileiros acreditam que estão sendo vítimas de um plano nacionalista de recolonização do leste do Paraguai e preferem omitir seus nomes quando explicam a teoria quase unânime de ‘‘limpeza étnica’’ que, segundo eles, se intensificou nos últimos anos.
‘‘Além de sermos discriminados pela polícia local, que não toma nenhuma providência quando as vítimas são brasileiras, somos ameaçados pelas autoridades para não reagir’’, disse um dos ‘‘exilados’’.
Os brasiguaios afirmam que os próprios ‘‘campesinos’’ admitem estarem a serviço de grandes empresários de Ciudad del Este (capital do departamento de Alto Paraná, na fronteira com Foz do Iguaçu).
‘‘Eles chegam em caravanas e dizem que vão tomar as terras e vendê-las para poder sobreviver na cidade’’, informou um dos brasiguaios de Puerto Índio. Eles contabilizam prejuízos com roubos de bois, vacas, cavalos e invasão de terras produtivas.
Os agricultores brasileiros denunciam que empresários em dificuldades financeiras decorrentes das fracas vendas nos últimos anos no centro comercial de Ciudad del Este estão tentando diversificar seus negócios, adquirindo terras no leste do país.
‘‘A maneira mais barata de se conseguir terras no Paraguai é comprando áreas invadidas dos campesinos’’, explica outro brasiguaio, que fugiu de Puerto Índio em maio, assustado com os constantes disparos de rifles e fuzis vindos da parte invadida de sua propriedade de 65 hectares.
Os brasiguaios contam que os campesinos são oriundos de favelas de Ciudad del Este e Assunção e que não têm experiência com atividades agrícolas. ‘‘Eles vêm em excursões organizadas e não são fiscalizados pela polícia, nem na rodovia, nem na chegada à região’’, revela um dos 150 brasiguaios que permaneceram acampados por 22 dias na área do Porto de Santa Helena.
O movimento bloqueou por três semanas o tráfego da balsa que liga Santa Helena à Puerto Índio. O serviço está funcionando normalmente desde segunda-feira, nos três horários habituais: 7h30, 11h30 e 15 horas.
Assessorado por parlamentares, o grupo de brasiguaios está negociando uma audiência com o governador de Alto Paraná, Jotvino Urunaga, que garantiu recebê-los depois de encerrada a disputa da Copa América (a final é domingo).Agricultores brasileiros que têm terras no Paraguai transferem protesto para proximidades da Ponte da Amizade
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