James Alberti
Uma ponte separa as cidades de Rio Negro, Sul do Estado, e Mafra, Santa Catarina. Sobre a ponte, de escopeta em punho, com duas pistolas 45 na cintura e vestido num modelito camuflado, incomum aos demais delegados do Paraná, Mário Sérgio Zachesky, 45 anos, vai se tornando uma lenda. Conhecido pelo apelido de Bradock, que, aliás, incorporou ao nome, o delegado de Rio Negro, assim como a ponte que divide os estados, tem dividido a população, os empresários e as autoridades da cidade: uns fazem campanha para que ele vá embora. Outros querem que ele fique.
Caricato e, às vezes autoritário, Bradock, assim como o personagem de Chuck Norris no cinema americano, tem facilidade em fazer amigos e inimigos com seu estilo de xerife. Foi assim quando Bradock trabalhou como delegado de Querência do Norte, há dois anos, onde ficou conhecido como o inimigo número 1 do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) (veja abaixo). Repete-se agora. Bradock afirma que a perseguição tem base em motivos políticos e na inveja do trabalho social que realiza (veja abaixo). O prefeito da cidade, Ari Siqueira (sem partido), parece concordar com o delegado. ‘‘Ele (Bradock) ia embora, mas quando eu vi que era por questões políticas, não deixei’’, diz Siqueira. Não era o caso da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sub-seção de Rio Negro, uma das entidades que pediu a saída do delegado. O presidente da OAB, Milton José Paizani, afirma que, no caso da entidade, não havia motivo político. ‘‘Eram fatos concretos’’, diz.
De fato, porém, o delegado se tornou pivô de uma disputa política. Segundo o prefeito, a transferência de Bradock já havia sido consumada em dezembro do ano passado. Uma suposta provocação do ex-deputado e ex-prefeito Alceu Antônio Swarowski, ex-aliado e adversário político de Siqueira, teria sido decisiva para mudar o destino do delegado. Conforme Siqueira, Swarowski teria afirmado na Câmara, onde trabalhava como assessor jurídico, que a transferência demonstrava que o prefeito já não mandava na cidade. ‘‘Bati na mesa da Casa Civil e pedi para que o Bradock ficasse’’, diz Siqueira. Swarowski, porém, nega envolvimento no episódio. ‘‘Jamais disse tais palavras. Se não, teria pedido a transferência do delegado diretamente ao secretário Cândido Martins de Oliveira (da Secretaria de Estado da Segurança).‘‘
A permanência de Bradock revela que o prefeito deu pouca importância aos apelos das principais entidades da cidade. Por trás do pedido de afastamento de Bradock estão nada mais nada menos que a Associação Comercial e Industrial (ACI) de Rio Negro, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a coordenação da Federação das Indústrias do Estado (Fiep) da região, a Loja Maçônica, o Sindicato Moveleiro e o Conselho de Segurança Pública Municipal. Em 19 dezembro de 1998, o jornal ‘‘Gazeta de Riomafrense’’, publicou as acusações da entidades: ‘‘procedimentos que extrapolam sua competência, intimidação, construção ilegal (área de enchente e em terreno particular), falta de entrosamento com os setores organizados do município, incluindo porte de armamento pesado, não condizente com a passividade da população.’’
Apesar do calibre das entidades e de o prefeito ter afirmado que a transferência já havia sido assinada, o delegado-geral da Polícia Civil, Newton Tadeu Rocha, disse que não está a par das reclamações. Segundo Rocha, não chegou a ele nenhuma denúncia contra o delegado. À Corregedoria da Polícia Civil e ao Fórum de Rio Negro, porém, chegaram pelo menos quatro denúncias. Duas de clientes do presidente da AOB, Milton José Paizani, e duas do advogado Ricardo Furquim. As acusações são de abuso de poder e prevaricação.

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